Eu acredito.

Abril 6, 2008

Eu acredito em pessoas especiais, em grandes sonhos e em inocência espontânea, afinal eu so sou espontânea quando sou inocente.

Acredito na frontalidade, na sensatez e no bom senso. No bem das pessoas e no mal também.

Acredito que nos enganamos, que nos arrependemos e que choramos, mas também acredito em perguntar, em ouvir e em compreender.

Acredito na vida, nas coisas boas e nas recordações!
Em finais felizes, em amores para sempre e em formas de amar diferentes.
Em gritar com tudo o que está nos pulmões, em gargalhadas com vontade e em sorrisos significativos.
Em estar sempre bem, mas quando não estiver heide ter quem me ajude.
Que ter medo me faz fugir, mas que haverá alguém para me encontrar.

Acredito que os livros no ensinam a falar, as fotografias a ver e os filmes a sonhar com hipóteses que não imaginamos. A música são sentimentos.

Eu acredito em melhores amigos e em amigos para sempre.

Acredito que um dia vou ser grande e rica e um pouco cabra talvez.

Acredito que a areia me envolve os pés para me proteger, que a lua olha por mim e que o mar… O mar sou eu, numa escala incrivelmente maior.

(Perdoem-me a poesia, mas eu acredito em poetas.)

Abril 1, 2008

Vamos brincar de crianças

fingir que somos pequenos

que somos esperanças.

Vamos brincar de meninos

fingir a inocência perdida

na altura em que a responsabilidade

no foi posta e exigida.

(é bom sentir-me assim outra vez)

Innocence – Avril Lavigne (vá a miúda vai tendo coisas audiveis…)

Nicest Thing (talvez…)

Março 27, 2008

All I know is that you’re so nice,
You’re the nicest thing I’ve seen.
I wish that we could give it a go,
See if we could be something.

I wish I was your favourite girl,
I wish you thought I was the reason you are in the world.
I wish I was your favourite smile,
I wish the way that I dressed was your favourite kind of style.

I wish you couldn’t figure me out,
But you always wanna know what I was about.
I wish you’d hold my hand when I was upset,
I wish you’d never forget the look on my face when we first met.

I wish you had a favourite beauty spot that you loved secretly,
‘Cos it was on a hidden bit that nobody else could see.
Basically, I wish that you loved me,
I wish that you needed me,
I wish that you knew when I said two sugars, actually I meant three.

I wish that without me your heart would break,
I wish that without me you’d be spending the rest of your nights awake.
I wish that without me you couldn’t eat,
I wish I was the last thing on your mind before you went to sleep.

All i know is that you’re the nicest thing I’ve ever seen
I wish that we could see if we could be something…

20º Despedida…

Março 19, 2008

—–Olhou para os olhos dela à procura de uma lagrima mas encontrou o bambular de um sorriso triste…

—–- Não choras? – perguntou.
—–- Tenho as lagrimas presas num abismo qualquer… Hei-de chorar, um dia, quando for inundada por um mar de tristeza repentino e inexplicável… Mas agora não vou chorar, voo sozinha, dou espaço à minha alma para se despedaçar aos poucos e quando cair a ultima peça choro… A tua partida, a nossa despedida, o que ficou por dizer, o não ter chorado…

—–“Aquela triste e leda madrugada” lembrou-se “em que se diz adeus ao passado e olá a um futuro inserto, por muito que nos custe deixar tudo para trás…”

—–Olhou-a mais uma vez… Continuava perto dela mas nunca a sentira tão distante, e estava linda, lapidada em gelo, com um sorriso torcido…

—–“Não chores por mim!” pensou “Lembrarei para sempre esse teu ar gelado que esconde o teu lado quente que sente, que chora, que só aparece mais tarde mas que eu sei que está lá, porque mostraste-mo, porque te entregaste… E agora fechas-te de novo em copas tal como eu te conheci, sem lagrimas, sem magoas, com os mesmo olhos de vidro… Só muda o teu sorriso e sorrio por te conseguir conhecer! O teu sorriso antes era franco, aberto, este é torcido, de quem deseja esquecer depressa mas lembrar para sempre…
—– Hei-de encontrar-te, um dia… Encontrar-te-ei com nova luz, de quem já esqueceu… Perguntar-te-ei se já choraste por mim mas não vais responder, vais sorrir ou rir mesmo! E eu vou ser capaz de decifrar esse sorriso, como vi agora esses lábios torcidos…”

—–Ele foi-se afastando a olhar para trás, a contemplar aquele ar gelado… Por segundos desejou que ela lhe dissesse adeus, só que ela continuou imóvel e calada; mas, quando conseguiu realmente vê-la, sentiu não um “adeus” mas “até breve”!
Olhou de novo mas ela já não estava lá… Voltou-se para a frente e sentiu fundir-se nele o mesmo gelo, o olhar de vidro e o sorriso torcido de quem deixara para trás, mas que levará sempre consigo…

Fim

Neste infinito fim que nos alcançou
Guardo uma lágrima vinda do fundo
Guardo um sorriso virado para o mundo
Guardo um sonho que nunca chegou

Na minha casa de paredes caídas
Penduro espelhos cor de prata
Guardo reflexos do canto que mata
Guardo uma arca de rimas perdidas…

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que conheci…

Num mundo onde tudo parece estar certo
Guardo os defeitos que me atam ao chão
Guardo muralhas feitas de cartão
Guardo um olhar que parecia tão perto

Para o país do esquecer o nunca nascido
Levo a espada e a armadura de ferro
Levo o escudo e o cavalo negro
Levo-te a ti…
Levo-te a ti…
Levo-te a ti…
Levo-te a ti para sempre comigo…

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que senti
Falo ao mar do que nunca perdi…

Toranja

19º Quarto crescente…

Março 17, 2008

—–Hoje tive a certeza de que me ia embora…
—–Hoje, quando desenhaste um coração nas cinzas da fogueira raquítica que acendemos só por acender…
—–Os meus pés já não suportam a areia, já estão cansados demais…
—–A minha alma está pesada demais… Pesada desta paixão efervescente, da dor da perda e do remorso… Pesada principalmente do remorso…
—–Já tinha esquecido o que era o remorso, aquele remoer de alma incessante… Porque eu não tinha remorsos, deixei de os ter para alimentar os caprichos da minha vontade, mas a vontade constrangida trouxe-os outra vez com ela…
—–Não estou arrependida, mas já não aguento esta corrosão toda, preciso de esvaziar a alma da dor e dos remorsos, rancorosos de mim…
—–Hoje tive a certeza de que me ia embora…
—–Hoje que o nosso silencio foi constrangedor pela primeira vez, e que nós nos sentimos feridos pela sua frieza…
—–Hoje que não fomos capazes de olhar no olhos um do outro e que continuamos aqui mudos, com as palavras estranguladas na garganta…
—–É quarto crescente…
—–Devolveste-me finalmente as minhas asas, deixaste-as no desenho do coração negro de cinzas que o vento atirou para cima de mim… Vêm queimadas… Queimadas pelo ardor da nossa paixão desvairada, mas trazem uma pena…
—–Esta pena é a memória do que foi nosso, mas hoje eu tive a certeza de que me ia embora…
—–Estamos os dois queimados demais para nos tocarmos sem que doa…
—–E hoje que me devolveste as asas já não há mais nada que me prenda aqui…

—–“E agora
—–Estou livre
—–Só quero ficar só

—–Assim fujo e esqueço tudo
—–Numa hora corro o mundo
—–Sou como um pássaro e largo tudo
—–Só para poder estar longe… – Lúcia Moniz, Asas na Mão”

18º O teu segredo…

Março 12, 2008

—–Eu tinha razão… Vieste para a praia.
—–Passei horas aqui a definhar à espera de uma notícia tua, mas tu não dás noticias…
—–Não sei como fazes, mas deixas a tua marca em tudo o que tocas…
—–A areia tinha as tuas pegadas, a água as lágrimas que choraste sozinha, o sol a tua luz débil deprimida de quando ficaste “menos iluminada”, como tu dizes…
—–Até o vento tinha o teu cheiro…
—–Os espinhos das dunas guardaram os teus segredos, mesmo quando me cortei em alguns ao esmaga-los de raiva… De raiva e de ciúme…
—–Ciúme porque esta praia sabe mais de ti que eu próprio… Ciúme porque é aqui que vais enterrar o que é nosso… Ciúme porque eu sabia que era aqui que virias primeiro…
—–Agora não sinto ciúme… Ver-te assim encolhida em ti própria põe a nu uma ternura que só pude ver em ti na noite em que me beijaste debaixo daquela chuva desinibida… Mas nessa noite a tua ternura era de menina pequena a quem tinham dado o mundo…
—–Hoje é de menina pequena a quem o tiraram…
—–Lembro-me de uma outra noite de bebedeira coveira, daquelas em que perdíamos o tino e nos deixávamos rebolar na roda alucinada do álcool no sangue… Tu olhaste para mim nessa tua expressão de outro mundo e olhos de cor indefinível e falaste num sibilar atordoante:

—–- Vou contar-te um segredo… Há noites em que eu me transformo em pássaro e saio por aí… Voo de alma em alma até encontrar a minha, e acordo no dia seguinte demasiado pedrada para ficar no mesmo sitio… É quando me vou embora…
—–Um pássaro exótico e intocável que abre as asas à noite para ouvir o murmurar da lua…
—–Fiquei com um olhar esbugalhado de bêbedo assustado e crédulo… Não me sai da cabeça aquele teu sorriso… Podia jurar que era quase maldoso…
—–Eu vi realmente esse pássaro noctívago a vaguear por esta praia, enquanto gritava aos grãos de areia as minha lamurias…

—–- Vou contar-te um segredo…
—–E eu vi-te… Vi um pássaro perdido a voar por aqui… Pássaro da noite.
Tentei apanha-lo. Durante as várias noites que estive aqui sozinho, aproveitava a falta de alguma para fazer para o perseguir…
—–Apanhei-o. E quando o olhei assustei-me. Eras tu. Eram os teus olhos com aquela cor que não sei o que é, que voam, à procura da luz da lua nova… Depois deixei-o fugir. Mas foi incrível a sensação de alívio que senti depois de o ver ir-se embora… Foi o confirmar da minha certeza em como vinhas aqui procurar-te…
—–Ainda não te tinhas apercebido de que eu estava atrás de ti, mas não te assustaste quando pus as mãos nos teus ombros…
—–Puxaste-as para que os meus braços te envolvessem e entrelaçaste as nossas mãos, comprimindo o boneco verde que tens no colo… Ao nosso filho deixa-o crescer na nossa falta de palavras…
—–O sol vai pôr-se e vai levar com ele esta amargura, esta luz débil de um fim menos bom… Porque a nossa história não acaba mal…
—–Hoje, assim abraçados, somos um só… Mas é a ultima vez que te tenho nos meus braços… Nos teus tens esse boneco de licra e o sol vai chamar o pássaro negro de quem estás à espera…

-—-“Somos nós o fim do que existe em nós…

—–Vamos ver o sol
—–Ver o mundo a morrer
—–Lá fora não nos faltam filmes para ver e fazer
—–O filho deita-o pela boca e deixa o puto crescer
—–Confortavelmente no seu corpo
—–Vamos pelo chão deste mundo esquecer
—–Que agora nada tem o brilho de colher e comer
—–Sobra sempre um dia para nos rendermos a estar
—–Lamentavelmente num só corpo – Pluto, Bem-vindo a ti”

—–Está feito.
—–Está morto. Estou vazia. Vazia de medo, de esperança, de preocupação…
—–Parece terem-me arrancado tudo com aquele aspirador de fetos inocentes.
—–Foram-se-me as palavras, a fome, a vontade, o riso, as lágrimas.
—–Até a tristeza se foi… Tenho os olhos secos de dor, os dentes cerrados por falta de lamentos…
—–Não me atrevo a chorar, não me vou lamentar. Fui eu que o quis.
—–Fi-lo porque achava que era o melhor, não porque estava certo…
—–Atenderam ao meu pedido para deixar a janela aberta. Vi-o voar por lá. Gostava de ir atrás dele…
—–“Qualquer coisa em mim me lembra morte
—–E eu confesso que até gosto…”
—–
O meu sarcasmo não foi embora…
—–Onde ontem trazia vida, trago hoje a morte…
—–Não era muito prudente saltar do nono andar, porque as asas da morte são normalmente mais rápidas que as da sorte… E eu sou tola mas não sou estúpida…
—–“Qualquer coisa em mim me lembra sorte
—–E eu confesso que eu aposto…”

—–Sempre tive as asas da sorte nas minhas costas, mas sei que têm limites. Sou tola mas não sou estúpida… É melhor ficar-me pelo bungee jumping, porque sem corda teria certamente um encontro violento com as pedras do passeio lá de baixo.
—–Ontem tive um encontro violento com a morte, mas fui eu que a chamei para levar a vida que tinha dentro de mim… Tive sorte mais uma vez, podia ter sido levada também…
—–Encontrei refúgio num edifico decrépito. Clínica clandestina. As paredes são brancas… Sempre detestei paredes brancas. São frias…
—–Aqui o chão, as maquinas, as macas, os lençóis, as batas, as luvas, as mascaras… Tudo é branco. De uma brancura que fere. Uma brancura que só é perturbada pelo sangue vermelho das que querem tirar vidas de dentro de si… E algumas são bem mais novas que eu…
—–Este branco grita! Este gelo agarra-se a quem está dentro dele.
—–Está na altura de eu fugir.
—–Um quadrado azul no meio deste branco… É o céu que se vê da janela. Está azul. Sem nuvens. Sem vestígios de branco. Sem vestígios de dor…
—–Arrumei as minhas coisas (limitei-me a fechar a mochila), paguei e vim-me embora. Fiquei sem o dinheiro que tinha juntado estas ferias, mas não fiquei sem a minha vida…
—–O edifício é cinzento. Cinzento como a morte que encerra dentro dele. Tenho de sair daqui, voar para o céu que é azul…
—–Vou a pé para a praia. É melhor assim. Preciso de ar.
—–Nunca pensei que me doesse tanto… Mas dói, dói muito. E a minha dor é branca…
—–O céu é azul por cima da minha cabeça e é ele que me vai consolando. É melhor deixar que ele e o vento me levem para não me perde na brancura desta dor…
—–Uma montra. Manequins de plástico. Bebés de plástico. Bonecos de plástico. Enfim, plástico.
—–Um boneco. Um boneco verde. Um boneco verde alface feito de um tecido elástico. Está cheio de um material parecido com esferovite… Não é de plástico.
—–Podiam ter-me enchido com esferovite… Estou vazia. Estou branca. E esta brancura dói-me…
—–Vou leva-lo. Preciso de encher os olhos com cor antes que ceguem também eles brancos…
—–Aperto o boneco contra o peito. Eu não quis ter um bebé nos braços. Não quis e não quero. Quero um abraço. Aquele que tu me devias ter dado, se tivesses vindo comigo…
—–Foi a mim que chamaste cobarde quando disse que o ia fazer, mas tu é que te foste enfrascar na noite anterior à minha vinda. Podia ter chamado outra pessoa, mas sem ti prefiro sofrer sozinha… E a segunda hipótese está muito longe fisicamente…
—–Não te posso censurar, refugiaste-te no que eu tenho vontade de me afogar agora…
—–Vodka é transparente… A minha dor é branca…
—–É melhor deixar que o vento me leve, não vá perder-me no caminho…

—–“Não me arrependo, meu amor
—–Não me arrependo…”
—–
Há muito que deixei de me arrepender pelo que faço. É perda de tempo. Está feito, já não se volta atrás. Temos de procurar uma solução à nossa frente…
—–É assim que eu lido com o passado, sem fugir, sem ficar agarrada, deixo-o para trás. Nunca tentei esquece-lo e não perco tempo a lembra-lo…
—–Pareço uma miúda triste agarrada ao seu boneco de licra. E sou uma miúda. Uma miúda em corpo de mulher. Uma miúda que não quis ser mulher antes do tempo.
—–Uma miúda que não quis ser mãe…
—–Prefiro agarrar-me a este boneco verde que vai ajudar a desaparecer o branco da minha alma. Porque isto dói.
—–Prefiro pensar como seria se este boneco virasse gente, do que desejar que gente virasse boneco. Porque mais vale arrependermo-nos do que não fizemos. Sempre o podemos fazer mais tarde. E eu posso ser mãe mais tarde…
—–Não me arrependo… Mas dói que se farta!

—–“Mas que eu aprendo, podes crer, isso eu aprendo…”
—-
-A minha dor é branca… Mas que o doer sirva para alguma coisa. E eu aprendo. Aprendo o significado de um minuto para mudar a nossa vida. Aprendo que dói fazer certas coisas. Aprendo que sou uma miúda com aparência de gente grande. Aprendo que não há mal em estar agarrada a um boneco. Aprendo que o preservativo não chega. Aprendo que sou uma miúda agarrada a um boneco…
—–A areia da praia está morna… Eu olho para o mar calminho à procura das minhas lágrimas…
—–A minha dor é branca. Branca como a neve gelada. Gelada como eu.
—–A minha dor é branca. Este boneco verde que trago nos braços abraça-me.
—–Finalmente o mar devolve-me as lágrimas…
—–Sou uma miúda agarrada a um boneco, num choro desesperado no meio da praia. E o boneco acompanha-me no seu silêncio e segura as lágrimas que deviam cair nas palmas das tuas mãos…
—–Quem disse que não era preciso coragem para fazer um aborto?
E a minha dor é branca…

Asa que reflecte a noite…
É a tua, é a lua
É o seu brilho intenso
É o extasie perfeito
Do cheiro do incenso!
É engano, é preguiça
É o desejo (que atiça)
É a sombra (de quem cobiça)!
É a asa que voa,
Que esconde e destapa!
Que dá a vida!
Que mata!

15º Primeiro Dia

Fevereiro 11, 2008

—–A princípio é simples, anda-se sozinho
—–Passa-se nas ruas bem devagarinho
—–Está-se bem no silêncio e no burburinho
—–Bebe-se as certezas num copo de vinho…

—–É-me muito difícil aceitar que o faças. Desculpa se não te apoio o suficiente, mas estou amargo demais para o que quer que seja.
—–Ando a deambular no meio das pessoas, absorto em mim. Penso. Em mim, em ti, na vida, na volta que deu a vida por causa de um mero descuido… Mas o descuido não foi pequeno, ou, se foi pequeno, a marca que deixou é enorme.
—–Uma marca de vida. E essa vida mudaria as nossas…
—–Dizes-me ser melhor assim. Não foste a única a dizê-lo. Por enquanto vou fazer de conta que acredito…
—–Eu era senhor das certezas, tudo sob controlo, sabia bem o que queria, vergava tudo à minha vontade.
—–Agora vejo as minhas certezas boiarem no copo de vodka transparente que tenho na mão. Estou vergado demais para ter vontade…
—–Preciso de qualquer coisa que bata depressa. Estou demasiado tenso…
—–É hoje que vais para lá… Hoje, porque já passa da meia-noite…

—–…hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…

—–Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
—–Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
—–Diz-se do passado, que está moribundo
—–Bebe-se o alento num copo sem fundo…

—–Já fiz quilómetros. Finalmente estou perdida. Perdida no escuro da praia. No escuro da noite.
—–É lua nova.
—–Hoje corri, gritei, chorei, gemi. Amaldiçoei a sorte, minha e de outros, atirei com palavras salgadas às dunas, comi as pedras da areia, afoguei-me lágrimas obstinadas.
—–Não senti fome, sede ou frio, não sinto a dor da minha perna esquartejada pelos espinhos duma planta escondida nas dunas.
—–A água do mar não me soube salgada (talvez das lágrimas que já engoli), o sol não me secou a pele nem a roupa, queria agarrar-me ao fundo e ficar lá para sempre a bambolear com as ondas…
—–Hoje não… Ontem. Já passa da meia-noite.

—–…hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

—–E é então que amigos nos oferecem leito
—–Entra-se cansado e sai-se refeito
—–Luta-se por tudo o que se leva a peito
—–Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito…

—–Estava embalado no jogo de penaltis e shots quando tu resolveste interromper a minha proeza de beber a mistura especial do bar da praia toda de uma vez…
—–- ‘Tas-te a passar? Queres dar entrada em coma alcoólica?
—–Eu estava passado. Passado e completamente bêbedo. Comecei a gritar:
—–- E depois, ah? E se entrasse? Que raio é que tu tens a ver com isso? Mas o que é que tu sabes da minha vida? Que ideia é que tu fazes daquilo que eu estou a passar? Falar é muito fácil quando se está de fora, não é? Enquanto tu te andas aí a divertir a comer a praia inteira eu estou aqui enterrado por me ter dado a uma só! E tu não tens ideia nenhuma do que é isso! NENHUMA!…
—–Enfiaste-me um murro no queixo, que me virou, e caí no chão. Grande pancada. Está tudo a andar à roda. Estou enjoado…
—–Levantaste-me e quase me atiraste porta fora, ou então foi a sensação que tive por mal me segurar nas pernas com tamanha bebedeira.
—–O meu estômago tem um tornado interno.
—–Vomitei. Vomitei tudo. Raiva, medo, vergonha, pena (que tinha de mim próprio).
—–Tu ficaste impávido e sereno a ouvir o meu vómito. Ficaste à espera que deitasse tudo para fora, ao contrário dos anormais que me alimentaram a raiva e o medo e a vergonha.
—–É bom ter amigos como tu por perto. O mais certo teria sido eu entrar em coma mesmo…

—–- ‘Tás melhor?
—–- ‘Tou… Ou acho que sim…
—–- Ela já foi?
—–- Mandou-me uma mensagem a dizer que ia lá ter de táxi…
—–- Só isso?
—–- Que mais querias que ela dissesse?
—–- Uns beijinhos ao menos…
—–Rimo-nos. Tu conhece-la minimamente, sabes bem que ela não é de demonstrações amorosas de meio em meio minuto, muito menos de mensagens cheias de beijinhos queridos ou fofos, que na sua opinião são do mais lamechas que pode haver… Chega a classificar isso de enjoativo…
—–- Sempre achei a vossa relação super esquisita. Não dá para saber o que é que vocês são exactamente… Sempre descomprometidos, nunca assumiram nada, mas desapareciam de repente, evaporavam-se e nunca dá para ter a certeza de estarem ou não juntos… Ela já tinha fama de ser assim, um espécie de lenda… Apetecível mas inatingível…
—–- Ela ensinou-me a tornar-me invisível. E qualquer relação amorosa dela é só dela, não lhe interessa que saibam que ela possui o que tem. Detesta que saibam das relações dela principalmente por causa das especulações que fazem outras pessoas… Mas também não mente… É um não dizer sem esconder nada, até porque ninguém tem nada a ver com isso…
—–- Ainda vais ter de me dizer como é que apanhaste aquele avião…
—–- Não fui eu que a apanhei… Foi ela que me apanhou a mim…
—–- Ela mordeu o isco e tu foste agarrado à cana de pesca…
—–Se há coisa que aprecio em ti é maneira seria que brincas com as coisas. Consegues sempre fazer-me rir… Agora só consegui dar-te um sorriso, porque não tenho força para mais…
—–- Entre as muitas coisas que aprendi com ela, percebi finalmente porque é que dizem que o amor não serve para prender… É para libertar…

—–- Pareces um velho a falar…
—–- E sinto-me bem velho…
—–Não fazes ideia o quão bem me soube essa palmada nas costas. Se fosse noutra altura qualquer tinha-te insultado a seguir por causa da força exagerada com que me bateste. Mas hoje eu estava mesmo a precisar…
—–Estava a precisar do murro que me deste para acordar, para sair do síndrome “só a mim é que me acontecem os males do mundo”. Estava a precisar dessa palmada nas costas para me sentir acompanhado, para me sentir seguro.
—–Agarraste-me no ombro. Também estás nervoso… Ou então sou eu que te passo o meu nervosismo…

—–- Essas tretas de que o homem não chora já são tão retardadas como o casamento com uma virgem imaculada… Tu não estás cansado, estás praticamente morto. E esse suportar o choro só te faz ficar pior. É lua nova, não se vê nada à frente, eu faço de conta que me evaporo, e tu choras o que tiveres para chorar, senão depois não tens lenço para o dilúvio final… E eu não quero ter de te espancar para tu chorares…
—–Eu chorei. Chorei todos os dias reprimidos numa caixa de ferro, frio e ferrugento. Chorei para limpar a fuligem das memórias torturadas nesta câmara de vácuo cheia de gritos. Abri finalmente as comportas da minha barragem.
—–Funguei e tu deste-me um lenço de papel amassado. Ranho é para o lixo assim como o peso desnecessário das lágrimas que estavam aprisionadas.
—–Decidimos ir para casa. Entrar de novo naquele bar era a minha perdição e eu já ando suficientemente perdido.

—–- Aquilo é amanhã?
—–- É hoje. E já passa muito da meia noite…

—–…e vem-nos à memória uma frase batida
—–hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…

—–Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
—–Olha-se para dentro e já pouco sobeja
—–Pede-se o descanso, por curto que seja
—–Apagam-se dúvidas num mar de cerveja…

—–Finalmente venceu-me o cansaço das pernas. É melhor sentar-me.
—–Ninguém aqui me pode ajudar. Preciso de um amigo, de uma mão, de um braço, de um corpo inteiro para me amparar…
—–Não sei onde procurar abrigo, a lua hoje escondeu-se atrás da sua sombra, e deixou-me a mim sem a minha.
—–Tanta gente que conheci nestas férias, aqui e ali, por estas praias que percorri tresloucada, mas estou completamente sozinha… eu gosto de estar sozinha, mas não é agora…
—–A noite é escura.
—–Telemóvel. Marcação automática dos meus dedos. Não preciso de olhar para o número, já sei de quem é. Do outro lado sei que vai estar a mão que eu preciso, que me vai responder racionalmente, como pessoa, como mulher e como amiga.
—–- Estou?

—–- Estava era a ver que nunca mais ligavas!
—–- E eu estava a ver que nunca mais me lembrava…
—–- Que foi?
—–- Estou grávida…
—–Suspiros. As duas tentávamos escolher palavras… Não havia outra maneira de explicar que talvez o defeito estivesse no preservativo mal colocado, no meio do alvoroço apaixonado.

—–- Agora deves estar um coração alvoraçado… O pai?
—–- É ele.
—–- Então isso é recente!
—–- Muito…
—–- E ele?
—–- Ainda agora o disseste… Coração alvoraçado.
—–- E tu?
—–- Definitivamente destrambelhada…
—–- Os teus pais?
—–- Nem sonham!
—–- Vais contar-lhes?
—–- Só se quiser dar-lhes uma enxurrada de desgosto…
—–- Tantos?
—–- Deixar de se virgem imaculada oficialmente, arranjar casamento tão cedo, tendo em conta que o genro não é exactamente o protótipo de genro perfeito, é um puto de fraldas que acabou de sair da incubadora…
—–- Não vais cometer essa loucura!
—–- Já estou perdida em tantas…
—–- Mas vais casar?
—–- Nem morta!
—–- Já fique mais aliviada… Que vais fazer então?
—–Não respondi… E o meu silencio foi resposta. Há quem lhe chame telepatia… Eu chamo-lhe amizade, cumplicidade e conhecimento que se tem por outrem, mas fica demasiado comprido…
—–- Não te posso fazer mais nada senão dar-te força, a menos que queiras que diga as pinderiquices do costume…
—–- Não precisas. Ninguém o pode fazer por mim.
—–- Tu sempre foste forte. É mais uma que tens de aguentar. E vai correr tudo bem…
—–- Já estás com as pinderiquices do costume.
—–- Não resisti! Apetece-me dar-te um par de estalos e daqueles abraços bem fortes, mas pelo telefone não dá…
—–- Diz-me sinceramente…
—–- O quê?
—–- Achas que faço mal?
—–- Não. Estás a fazer aquilo que acreditas que é melhor. E não está mal fazer aquilo em que acreditamos, podemos quando muito é estar mal acreditados… Alem disso eu sempre pensei como tu, faria o mesmo se tivesse coragem…
—–- A coragem fugiu-me… Agora essa ladainha toda que eu defendia parece-me só garganta…
—–- E era. Falavas de cor, sem nunca ter passado por isso. Depois já vais poder falar como experimentada. E coragem tu tem-la. És um poço disso. Mas se fizeres questão mando-te um bocadinho…
—–Rimos. Sempre tivemos personalidades muito fortes, sempre fomos fortes as duas, e ampararmo-nos uma à outra solidificava bem essa força…
—–Posso sentir uma brisa suave agora. Agora, que me saiu um peso de cima, já consigo ouvir o respirar da noite. É calma… É funda… É nesta respiração sonolenta que vou buscar a coragem que me falta para o grande mergulho…

—–- É amanha?
—–- É hoje. Já passa da meia-noite….

—–…e vem-nos à memória uma frase batida
—–hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…

—–Enfim duma escolha faz-se um desafio
—–Enfrenta-se a vida de fio a pavio
—–Navega-se sem mar, sem vela ou navio
—–Bebe-se a coragem até dum copo vazio…

—–Pedi para mo fazerem de madrugada. Fiquei surpreendida por aceitarem e até agradeceram. Dizem ser mais suspeito durante o dia…
—–Sinto-me encarcerada em quatro paredes. Uma janela escura da noite lá fora…
—–Estão a preparar a sala.
—–Uma enfermeira deu-me uns concelhos.
—–Um rapaz novito, que deve ser uma espécie de assistente, ofereceu-me um cigarro.
—–Não fumo. Mas apetece-me cometer o estúpido erro de experimentar aquele fumo a inundar-me os pulmões, só que já estou suficientemente inundada…
—–Deixei-me ficar do lado de fora, só trouxe o meu corpo para este corredor da morte…
—–A coragem trouxe-a na mala, ou mochila, e nos espaços que ficaram ocos em mim…
—–Decidi que o ia fazer, agora vou até ao fim. E digo isto para me convencer a mim mesma de que já não posso andar para trás…
—–Não acho que este seja o caminho mais fácil ou mais difícil, mas torna-o mais suportável pensar que não havia outra solução… E para mim não há.
—–Não faço ideia no que me vou meter…
—–Disseram-me que, com um feto tão pequeno, seria fácil e rápido. Só peço isso.
—–Não gosto que me mexam nas entranhas, e sempre tive alguma relutância em ir ao ginecologista, por isso a ideia de estar de pernas abertas em frente a alguém e ser invadida por “aparelhómetros” esquisitos para tirar vida de dentro de mim não me agrada. Mas não há solução agora.
—–Está tudo pronto. Fui chamada.
—–Está à minha espera uma maca, ou cama, ou caixão de descuidos irrevogáveis… O seu convite é duvidoso.
—–Sinto-me a caminhar para a morte…
—–Anestesiaram-me, mas vendo bem eu já estava anestesiada quando aqui cheguei. Anestesiada da horroridade da realidade do que vou fazer.
—–O meu pensamento está cada vez mais arrastado… Estou a cair no vazio, ouço as coisas cada vez mais longe… Sinto esvaziar-me de tudo, como se o meu espírito liquido se esvaísse pelas extremidades do meu corpo… Das pontas dos dedos, das mão e dos pés, por entre as pernas, escorre um fluido…

—–…E continuo a cair desamparada, sem que ninguém note, assim de mansinho…
—–…E deixo afundar-me em mágoas sem nome…
—–Se ainda não cheguei ao ponto do afogamento em que nos deixamos levar, estou muito perto…
—–…E sinto uma força escura apertar-me o peito, como um demónio viscoso… Mas não o enxoto, pelo contrário…
—–…Acaricio-o, afago-o, faço-o crescer…
—–…E gritos sopram-me aos ouvidos estórias melancólicas que são minhas, mas das quais não me lembro…
—–…Passei-as, fechei-as num quarto e fiz perdida a chave da porta…
—–…E tranquei-me lá dentro sem o saber…
—–Envenenada de agonias, embriagada de lágrimas, deixo-me levar como criança iludida…
—–…E sorrio à sua própria tristeza, a única que tenho por companhia, cada vez mais fundo, numa gruta de gritos emudecidos que nunca ganharam forma…
—–…E este é um dos poucos que consegue escapar…
—–…E são os que escapam que deixam entrar uma lufada de ar…
—–…E não deixam que me esqueça para onde fica a saída…

—–…hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…

—–E entretanto o tempo fez cinza da brasa
—–E outra maré-cheia virá da maré vaza
—–Nasce um novo dia e no braço outra asa
—–Brinda-se aos amores com o vinho da casa…

—–Adormeci no chão da sala, depois de ter tropeçado e não ter tido nem força nem vontade de me levantar…
—–Ainda é muito cedo…
—–Há uma luz azulada a entrar-me pela janela… Foi por esta janela que entramos pela primeira vez… Foi por esta janela que escapaste com as minhas asas…
—–As nossas asas… Lembraste quando as abrias desmedidamente para levar tudo o que era teu? Quando fugias por janelas abertas por estarem as portas fechadas? Quando perdias o tino e deixavas que elas te guiassem para um mundo transcendente que me aturdia e deixava sem ponta de sangue?
—–As tuas quiseram ensinar-me a fazer isso mas sempre fui mais cobarde… Ou mais comodista… Ao menos uma coisa posso dizer de bem sobre mim, não fui eu que me adaptei aos padrões, adaptei antes os padrões a mim, até porque se fosse totalmente aos quadrados nunca te tinha tido.
—–Gostas de tudo misturado, de não cumprir as regras, de sair dos padrões, mas também não és do contra, fazes somente o que te apetece… Se tiveres de gritar no meio da rua gritas, se quiseres dançar perdidamente fechas os olhos e esqueces o mundo.
—–Fazes da tua a vida um carrossel de sonhos que outros consideram impossíveis por nunca os terem tentado. E tu alcança-los, no fundo fazes o que queres, consegues tudo o que queres…
—–Nisso somos parecidos, mas tu sonhas bem alto, voas bem mais alto…
—–Ensinaste-me que poses impõem um tecto à nossa espontaneidade. E a tua é tão bonita…
—–Ainda é muito cedo…
—–Por esta hora deves estar no recobro… Espero que não te tenham tirado as asas. Sei que estão magoadas, partidas, depenadas como as minhas, mas precisamos delas para continuar.
—–Sonhei com dois pássaros de asas ardentes. Voaram sem cessar e foram espalhando as cinzas numa água escura.
—–Quando já só restavam as cinzas a boiar na água, formou-se um remoinho assombroso e de lá saiu luz. Uma luz imensa, mas não era branca… Era da mesma cor indefinível que tinham os teus olhos naquele dia tempestuoso…
—–E saiu de lá um anjo. Um anjo de asas titânicas. Um anjo com a tua cara.
—–O anjo (ou tu) voltou ao fundo do remoinho e vi-me a mim a sorrir com asas novas. Estendeste-me a mão, agarrei-a e deixei que as minhas asas se abrissem para um novo que eu ainda não conheço…
—–Nunca acreditei em histórias de prever o futuro. Hoje vou acreditar que, depois das nossas chagas arderem, teremos asas ainda maiores. E vou perder o medo de voar para ir ter ao alto contigo…
—–Quando acordares vais provavelmente refugiar-te na praia, e eu vou estar atento, para te salvar do mergulho… Mas hoje ainda é muito cedo…

—–…e vem-nos à memória uma frase batida
—–hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…- Sérgio Godinho, Primeiro Dia

Grita o mar

sussurra o vento

cantam os grilos

e o meu alento

Vejo as estrelas

chamo por elas

se elas respondem

ficam mais belas

se não responderem

deixo-me estar

há-de haver uma

que me vai chamar

É nessa altura

é ao chamamento

que o meu espirito

que jaze ao relento

vai acordar

e, ou o sonho vai perseguir

ou adormece

e deixa-o fugir…

Sonho fugido

quase esquecido

pode voltar

trazido pelo vento

de uma estrela, o chamamento

ou simplesmente

permanece assim

perdido nas ondas

de um mar sem fim…