20º Despedida…

Março 19, 2008

—–Olhou para os olhos dela à procura de uma lagrima mas encontrou o bambular de um sorriso triste…

—–- Não choras? – perguntou.
—–- Tenho as lagrimas presas num abismo qualquer… Hei-de chorar, um dia, quando for inundada por um mar de tristeza repentino e inexplicável… Mas agora não vou chorar, voo sozinha, dou espaço à minha alma para se despedaçar aos poucos e quando cair a ultima peça choro… A tua partida, a nossa despedida, o que ficou por dizer, o não ter chorado…

—–“Aquela triste e leda madrugada” lembrou-se “em que se diz adeus ao passado e olá a um futuro inserto, por muito que nos custe deixar tudo para trás…”

—–Olhou-a mais uma vez… Continuava perto dela mas nunca a sentira tão distante, e estava linda, lapidada em gelo, com um sorriso torcido…

—–“Não chores por mim!” pensou “Lembrarei para sempre esse teu ar gelado que esconde o teu lado quente que sente, que chora, que só aparece mais tarde mas que eu sei que está lá, porque mostraste-mo, porque te entregaste… E agora fechas-te de novo em copas tal como eu te conheci, sem lagrimas, sem magoas, com os mesmo olhos de vidro… Só muda o teu sorriso e sorrio por te conseguir conhecer! O teu sorriso antes era franco, aberto, este é torcido, de quem deseja esquecer depressa mas lembrar para sempre…
—– Hei-de encontrar-te, um dia… Encontrar-te-ei com nova luz, de quem já esqueceu… Perguntar-te-ei se já choraste por mim mas não vais responder, vais sorrir ou rir mesmo! E eu vou ser capaz de decifrar esse sorriso, como vi agora esses lábios torcidos…”

—–Ele foi-se afastando a olhar para trás, a contemplar aquele ar gelado… Por segundos desejou que ela lhe dissesse adeus, só que ela continuou imóvel e calada; mas, quando conseguiu realmente vê-la, sentiu não um “adeus” mas “até breve”!
Olhou de novo mas ela já não estava lá… Voltou-se para a frente e sentiu fundir-se nele o mesmo gelo, o olhar de vidro e o sorriso torcido de quem deixara para trás, mas que levará sempre consigo…

Fim

Neste infinito fim que nos alcançou
Guardo uma lágrima vinda do fundo
Guardo um sorriso virado para o mundo
Guardo um sonho que nunca chegou

Na minha casa de paredes caídas
Penduro espelhos cor de prata
Guardo reflexos do canto que mata
Guardo uma arca de rimas perdidas…

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que conheci…

Num mundo onde tudo parece estar certo
Guardo os defeitos que me atam ao chão
Guardo muralhas feitas de cartão
Guardo um olhar que parecia tão perto

Para o país do esquecer o nunca nascido
Levo a espada e a armadura de ferro
Levo o escudo e o cavalo negro
Levo-te a ti…
Levo-te a ti…
Levo-te a ti…
Levo-te a ti para sempre comigo…

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que senti
Falo ao mar do que nunca perdi…

Toranja

19º Quarto crescente…

Março 17, 2008

—–Hoje tive a certeza de que me ia embora…
—–Hoje, quando desenhaste um coração nas cinzas da fogueira raquítica que acendemos só por acender…
—–Os meus pés já não suportam a areia, já estão cansados demais…
—–A minha alma está pesada demais… Pesada desta paixão efervescente, da dor da perda e do remorso… Pesada principalmente do remorso…
—–Já tinha esquecido o que era o remorso, aquele remoer de alma incessante… Porque eu não tinha remorsos, deixei de os ter para alimentar os caprichos da minha vontade, mas a vontade constrangida trouxe-os outra vez com ela…
—–Não estou arrependida, mas já não aguento esta corrosão toda, preciso de esvaziar a alma da dor e dos remorsos, rancorosos de mim…
—–Hoje tive a certeza de que me ia embora…
—–Hoje que o nosso silencio foi constrangedor pela primeira vez, e que nós nos sentimos feridos pela sua frieza…
—–Hoje que não fomos capazes de olhar no olhos um do outro e que continuamos aqui mudos, com as palavras estranguladas na garganta…
—–É quarto crescente…
—–Devolveste-me finalmente as minhas asas, deixaste-as no desenho do coração negro de cinzas que o vento atirou para cima de mim… Vêm queimadas… Queimadas pelo ardor da nossa paixão desvairada, mas trazem uma pena…
—–Esta pena é a memória do que foi nosso, mas hoje eu tive a certeza de que me ia embora…
—–Estamos os dois queimados demais para nos tocarmos sem que doa…
—–E hoje que me devolveste as asas já não há mais nada que me prenda aqui…

—–“E agora
—–Estou livre
—–Só quero ficar só

—–Assim fujo e esqueço tudo
—–Numa hora corro o mundo
—–Sou como um pássaro e largo tudo
—–Só para poder estar longe… – Lúcia Moniz, Asas na Mão”

18º O teu segredo…

Março 12, 2008

—–Eu tinha razão… Vieste para a praia.
—–Passei horas aqui a definhar à espera de uma notícia tua, mas tu não dás noticias…
—–Não sei como fazes, mas deixas a tua marca em tudo o que tocas…
—–A areia tinha as tuas pegadas, a água as lágrimas que choraste sozinha, o sol a tua luz débil deprimida de quando ficaste “menos iluminada”, como tu dizes…
—–Até o vento tinha o teu cheiro…
—–Os espinhos das dunas guardaram os teus segredos, mesmo quando me cortei em alguns ao esmaga-los de raiva… De raiva e de ciúme…
—–Ciúme porque esta praia sabe mais de ti que eu próprio… Ciúme porque é aqui que vais enterrar o que é nosso… Ciúme porque eu sabia que era aqui que virias primeiro…
—–Agora não sinto ciúme… Ver-te assim encolhida em ti própria põe a nu uma ternura que só pude ver em ti na noite em que me beijaste debaixo daquela chuva desinibida… Mas nessa noite a tua ternura era de menina pequena a quem tinham dado o mundo…
—–Hoje é de menina pequena a quem o tiraram…
—–Lembro-me de uma outra noite de bebedeira coveira, daquelas em que perdíamos o tino e nos deixávamos rebolar na roda alucinada do álcool no sangue… Tu olhaste para mim nessa tua expressão de outro mundo e olhos de cor indefinível e falaste num sibilar atordoante:

—–- Vou contar-te um segredo… Há noites em que eu me transformo em pássaro e saio por aí… Voo de alma em alma até encontrar a minha, e acordo no dia seguinte demasiado pedrada para ficar no mesmo sitio… É quando me vou embora…
—–Um pássaro exótico e intocável que abre as asas à noite para ouvir o murmurar da lua…
—–Fiquei com um olhar esbugalhado de bêbedo assustado e crédulo… Não me sai da cabeça aquele teu sorriso… Podia jurar que era quase maldoso…
—–Eu vi realmente esse pássaro noctívago a vaguear por esta praia, enquanto gritava aos grãos de areia as minha lamurias…

—–- Vou contar-te um segredo…
—–E eu vi-te… Vi um pássaro perdido a voar por aqui… Pássaro da noite.
Tentei apanha-lo. Durante as várias noites que estive aqui sozinho, aproveitava a falta de alguma para fazer para o perseguir…
—–Apanhei-o. E quando o olhei assustei-me. Eras tu. Eram os teus olhos com aquela cor que não sei o que é, que voam, à procura da luz da lua nova… Depois deixei-o fugir. Mas foi incrível a sensação de alívio que senti depois de o ver ir-se embora… Foi o confirmar da minha certeza em como vinhas aqui procurar-te…
—–Ainda não te tinhas apercebido de que eu estava atrás de ti, mas não te assustaste quando pus as mãos nos teus ombros…
—–Puxaste-as para que os meus braços te envolvessem e entrelaçaste as nossas mãos, comprimindo o boneco verde que tens no colo… Ao nosso filho deixa-o crescer na nossa falta de palavras…
—–O sol vai pôr-se e vai levar com ele esta amargura, esta luz débil de um fim menos bom… Porque a nossa história não acaba mal…
—–Hoje, assim abraçados, somos um só… Mas é a ultima vez que te tenho nos meus braços… Nos teus tens esse boneco de licra e o sol vai chamar o pássaro negro de quem estás à espera…

-—-“Somos nós o fim do que existe em nós…

—–Vamos ver o sol
—–Ver o mundo a morrer
—–Lá fora não nos faltam filmes para ver e fazer
—–O filho deita-o pela boca e deixa o puto crescer
—–Confortavelmente no seu corpo
—–Vamos pelo chão deste mundo esquecer
—–Que agora nada tem o brilho de colher e comer
—–Sobra sempre um dia para nos rendermos a estar
—–Lamentavelmente num só corpo – Pluto, Bem-vindo a ti”

—–Está feito.
—–Está morto. Estou vazia. Vazia de medo, de esperança, de preocupação…
—–Parece terem-me arrancado tudo com aquele aspirador de fetos inocentes.
—–Foram-se-me as palavras, a fome, a vontade, o riso, as lágrimas.
—–Até a tristeza se foi… Tenho os olhos secos de dor, os dentes cerrados por falta de lamentos…
—–Não me atrevo a chorar, não me vou lamentar. Fui eu que o quis.
—–Fi-lo porque achava que era o melhor, não porque estava certo…
—–Atenderam ao meu pedido para deixar a janela aberta. Vi-o voar por lá. Gostava de ir atrás dele…
—–“Qualquer coisa em mim me lembra morte
—–E eu confesso que até gosto…”
—–
O meu sarcasmo não foi embora…
—–Onde ontem trazia vida, trago hoje a morte…
—–Não era muito prudente saltar do nono andar, porque as asas da morte são normalmente mais rápidas que as da sorte… E eu sou tola mas não sou estúpida…
—–“Qualquer coisa em mim me lembra sorte
—–E eu confesso que eu aposto…”

—–Sempre tive as asas da sorte nas minhas costas, mas sei que têm limites. Sou tola mas não sou estúpida… É melhor ficar-me pelo bungee jumping, porque sem corda teria certamente um encontro violento com as pedras do passeio lá de baixo.
—–Ontem tive um encontro violento com a morte, mas fui eu que a chamei para levar a vida que tinha dentro de mim… Tive sorte mais uma vez, podia ter sido levada também…
—–Encontrei refúgio num edifico decrépito. Clínica clandestina. As paredes são brancas… Sempre detestei paredes brancas. São frias…
—–Aqui o chão, as maquinas, as macas, os lençóis, as batas, as luvas, as mascaras… Tudo é branco. De uma brancura que fere. Uma brancura que só é perturbada pelo sangue vermelho das que querem tirar vidas de dentro de si… E algumas são bem mais novas que eu…
—–Este branco grita! Este gelo agarra-se a quem está dentro dele.
—–Está na altura de eu fugir.
—–Um quadrado azul no meio deste branco… É o céu que se vê da janela. Está azul. Sem nuvens. Sem vestígios de branco. Sem vestígios de dor…
—–Arrumei as minhas coisas (limitei-me a fechar a mochila), paguei e vim-me embora. Fiquei sem o dinheiro que tinha juntado estas ferias, mas não fiquei sem a minha vida…
—–O edifício é cinzento. Cinzento como a morte que encerra dentro dele. Tenho de sair daqui, voar para o céu que é azul…
—–Vou a pé para a praia. É melhor assim. Preciso de ar.
—–Nunca pensei que me doesse tanto… Mas dói, dói muito. E a minha dor é branca…
—–O céu é azul por cima da minha cabeça e é ele que me vai consolando. É melhor deixar que ele e o vento me levem para não me perde na brancura desta dor…
—–Uma montra. Manequins de plástico. Bebés de plástico. Bonecos de plástico. Enfim, plástico.
—–Um boneco. Um boneco verde. Um boneco verde alface feito de um tecido elástico. Está cheio de um material parecido com esferovite… Não é de plástico.
—–Podiam ter-me enchido com esferovite… Estou vazia. Estou branca. E esta brancura dói-me…
—–Vou leva-lo. Preciso de encher os olhos com cor antes que ceguem também eles brancos…
—–Aperto o boneco contra o peito. Eu não quis ter um bebé nos braços. Não quis e não quero. Quero um abraço. Aquele que tu me devias ter dado, se tivesses vindo comigo…
—–Foi a mim que chamaste cobarde quando disse que o ia fazer, mas tu é que te foste enfrascar na noite anterior à minha vinda. Podia ter chamado outra pessoa, mas sem ti prefiro sofrer sozinha… E a segunda hipótese está muito longe fisicamente…
—–Não te posso censurar, refugiaste-te no que eu tenho vontade de me afogar agora…
—–Vodka é transparente… A minha dor é branca…
—–É melhor deixar que o vento me leve, não vá perder-me no caminho…

—–“Não me arrependo, meu amor
—–Não me arrependo…”
—–
Há muito que deixei de me arrepender pelo que faço. É perda de tempo. Está feito, já não se volta atrás. Temos de procurar uma solução à nossa frente…
—–É assim que eu lido com o passado, sem fugir, sem ficar agarrada, deixo-o para trás. Nunca tentei esquece-lo e não perco tempo a lembra-lo…
—–Pareço uma miúda triste agarrada ao seu boneco de licra. E sou uma miúda. Uma miúda em corpo de mulher. Uma miúda que não quis ser mulher antes do tempo.
—–Uma miúda que não quis ser mãe…
—–Prefiro agarrar-me a este boneco verde que vai ajudar a desaparecer o branco da minha alma. Porque isto dói.
—–Prefiro pensar como seria se este boneco virasse gente, do que desejar que gente virasse boneco. Porque mais vale arrependermo-nos do que não fizemos. Sempre o podemos fazer mais tarde. E eu posso ser mãe mais tarde…
—–Não me arrependo… Mas dói que se farta!

—–“Mas que eu aprendo, podes crer, isso eu aprendo…”
—-
-A minha dor é branca… Mas que o doer sirva para alguma coisa. E eu aprendo. Aprendo o significado de um minuto para mudar a nossa vida. Aprendo que dói fazer certas coisas. Aprendo que sou uma miúda com aparência de gente grande. Aprendo que não há mal em estar agarrada a um boneco. Aprendo que o preservativo não chega. Aprendo que sou uma miúda agarrada a um boneco…
—–A areia da praia está morna… Eu olho para o mar calminho à procura das minhas lágrimas…
—–A minha dor é branca. Branca como a neve gelada. Gelada como eu.
—–A minha dor é branca. Este boneco verde que trago nos braços abraça-me.
—–Finalmente o mar devolve-me as lágrimas…
—–Sou uma miúda agarrada a um boneco, num choro desesperado no meio da praia. E o boneco acompanha-me no seu silêncio e segura as lágrimas que deviam cair nas palmas das tuas mãos…
—–Quem disse que não era preciso coragem para fazer um aborto?
E a minha dor é branca…

Asa que reflecte a noite…
É a tua, é a lua
É o seu brilho intenso
É o extasie perfeito
Do cheiro do incenso!
É engano, é preguiça
É o desejo (que atiça)
É a sombra (de quem cobiça)!
É a asa que voa,
Que esconde e destapa!
Que dá a vida!
Que mata!

15º Primeiro Dia

Fevereiro 11, 2008

—–A princípio é simples, anda-se sozinho
—–Passa-se nas ruas bem devagarinho
—–Está-se bem no silêncio e no burburinho
—–Bebe-se as certezas num copo de vinho…

—–É-me muito difícil aceitar que o faças. Desculpa se não te apoio o suficiente, mas estou amargo demais para o que quer que seja.
—–Ando a deambular no meio das pessoas, absorto em mim. Penso. Em mim, em ti, na vida, na volta que deu a vida por causa de um mero descuido… Mas o descuido não foi pequeno, ou, se foi pequeno, a marca que deixou é enorme.
—–Uma marca de vida. E essa vida mudaria as nossas…
—–Dizes-me ser melhor assim. Não foste a única a dizê-lo. Por enquanto vou fazer de conta que acredito…
—–Eu era senhor das certezas, tudo sob controlo, sabia bem o que queria, vergava tudo à minha vontade.
—–Agora vejo as minhas certezas boiarem no copo de vodka transparente que tenho na mão. Estou vergado demais para ter vontade…
—–Preciso de qualquer coisa que bata depressa. Estou demasiado tenso…
—–É hoje que vais para lá… Hoje, porque já passa da meia-noite…

—–…hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…

—–Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
—–Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
—–Diz-se do passado, que está moribundo
—–Bebe-se o alento num copo sem fundo…

—–Já fiz quilómetros. Finalmente estou perdida. Perdida no escuro da praia. No escuro da noite.
—–É lua nova.
—–Hoje corri, gritei, chorei, gemi. Amaldiçoei a sorte, minha e de outros, atirei com palavras salgadas às dunas, comi as pedras da areia, afoguei-me lágrimas obstinadas.
—–Não senti fome, sede ou frio, não sinto a dor da minha perna esquartejada pelos espinhos duma planta escondida nas dunas.
—–A água do mar não me soube salgada (talvez das lágrimas que já engoli), o sol não me secou a pele nem a roupa, queria agarrar-me ao fundo e ficar lá para sempre a bambolear com as ondas…
—–Hoje não… Ontem. Já passa da meia-noite.

—–…hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

—–E é então que amigos nos oferecem leito
—–Entra-se cansado e sai-se refeito
—–Luta-se por tudo o que se leva a peito
—–Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito…

—–Estava embalado no jogo de penaltis e shots quando tu resolveste interromper a minha proeza de beber a mistura especial do bar da praia toda de uma vez…
—–- ‘Tas-te a passar? Queres dar entrada em coma alcoólica?
—–Eu estava passado. Passado e completamente bêbedo. Comecei a gritar:
—–- E depois, ah? E se entrasse? Que raio é que tu tens a ver com isso? Mas o que é que tu sabes da minha vida? Que ideia é que tu fazes daquilo que eu estou a passar? Falar é muito fácil quando se está de fora, não é? Enquanto tu te andas aí a divertir a comer a praia inteira eu estou aqui enterrado por me ter dado a uma só! E tu não tens ideia nenhuma do que é isso! NENHUMA!…
—–Enfiaste-me um murro no queixo, que me virou, e caí no chão. Grande pancada. Está tudo a andar à roda. Estou enjoado…
—–Levantaste-me e quase me atiraste porta fora, ou então foi a sensação que tive por mal me segurar nas pernas com tamanha bebedeira.
—–O meu estômago tem um tornado interno.
—–Vomitei. Vomitei tudo. Raiva, medo, vergonha, pena (que tinha de mim próprio).
—–Tu ficaste impávido e sereno a ouvir o meu vómito. Ficaste à espera que deitasse tudo para fora, ao contrário dos anormais que me alimentaram a raiva e o medo e a vergonha.
—–É bom ter amigos como tu por perto. O mais certo teria sido eu entrar em coma mesmo…

—–- ‘Tás melhor?
—–- ‘Tou… Ou acho que sim…
—–- Ela já foi?
—–- Mandou-me uma mensagem a dizer que ia lá ter de táxi…
—–- Só isso?
—–- Que mais querias que ela dissesse?
—–- Uns beijinhos ao menos…
—–Rimo-nos. Tu conhece-la minimamente, sabes bem que ela não é de demonstrações amorosas de meio em meio minuto, muito menos de mensagens cheias de beijinhos queridos ou fofos, que na sua opinião são do mais lamechas que pode haver… Chega a classificar isso de enjoativo…
—–- Sempre achei a vossa relação super esquisita. Não dá para saber o que é que vocês são exactamente… Sempre descomprometidos, nunca assumiram nada, mas desapareciam de repente, evaporavam-se e nunca dá para ter a certeza de estarem ou não juntos… Ela já tinha fama de ser assim, um espécie de lenda… Apetecível mas inatingível…
—–- Ela ensinou-me a tornar-me invisível. E qualquer relação amorosa dela é só dela, não lhe interessa que saibam que ela possui o que tem. Detesta que saibam das relações dela principalmente por causa das especulações que fazem outras pessoas… Mas também não mente… É um não dizer sem esconder nada, até porque ninguém tem nada a ver com isso…
—–- Ainda vais ter de me dizer como é que apanhaste aquele avião…
—–- Não fui eu que a apanhei… Foi ela que me apanhou a mim…
—–- Ela mordeu o isco e tu foste agarrado à cana de pesca…
—–Se há coisa que aprecio em ti é maneira seria que brincas com as coisas. Consegues sempre fazer-me rir… Agora só consegui dar-te um sorriso, porque não tenho força para mais…
—–- Entre as muitas coisas que aprendi com ela, percebi finalmente porque é que dizem que o amor não serve para prender… É para libertar…

—–- Pareces um velho a falar…
—–- E sinto-me bem velho…
—–Não fazes ideia o quão bem me soube essa palmada nas costas. Se fosse noutra altura qualquer tinha-te insultado a seguir por causa da força exagerada com que me bateste. Mas hoje eu estava mesmo a precisar…
—–Estava a precisar do murro que me deste para acordar, para sair do síndrome “só a mim é que me acontecem os males do mundo”. Estava a precisar dessa palmada nas costas para me sentir acompanhado, para me sentir seguro.
—–Agarraste-me no ombro. Também estás nervoso… Ou então sou eu que te passo o meu nervosismo…

—–- Essas tretas de que o homem não chora já são tão retardadas como o casamento com uma virgem imaculada… Tu não estás cansado, estás praticamente morto. E esse suportar o choro só te faz ficar pior. É lua nova, não se vê nada à frente, eu faço de conta que me evaporo, e tu choras o que tiveres para chorar, senão depois não tens lenço para o dilúvio final… E eu não quero ter de te espancar para tu chorares…
—–Eu chorei. Chorei todos os dias reprimidos numa caixa de ferro, frio e ferrugento. Chorei para limpar a fuligem das memórias torturadas nesta câmara de vácuo cheia de gritos. Abri finalmente as comportas da minha barragem.
—–Funguei e tu deste-me um lenço de papel amassado. Ranho é para o lixo assim como o peso desnecessário das lágrimas que estavam aprisionadas.
—–Decidimos ir para casa. Entrar de novo naquele bar era a minha perdição e eu já ando suficientemente perdido.

—–- Aquilo é amanhã?
—–- É hoje. E já passa muito da meia noite…

—–…e vem-nos à memória uma frase batida
—–hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…

—–Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
—–Olha-se para dentro e já pouco sobeja
—–Pede-se o descanso, por curto que seja
—–Apagam-se dúvidas num mar de cerveja…

—–Finalmente venceu-me o cansaço das pernas. É melhor sentar-me.
—–Ninguém aqui me pode ajudar. Preciso de um amigo, de uma mão, de um braço, de um corpo inteiro para me amparar…
—–Não sei onde procurar abrigo, a lua hoje escondeu-se atrás da sua sombra, e deixou-me a mim sem a minha.
—–Tanta gente que conheci nestas férias, aqui e ali, por estas praias que percorri tresloucada, mas estou completamente sozinha… eu gosto de estar sozinha, mas não é agora…
—–A noite é escura.
—–Telemóvel. Marcação automática dos meus dedos. Não preciso de olhar para o número, já sei de quem é. Do outro lado sei que vai estar a mão que eu preciso, que me vai responder racionalmente, como pessoa, como mulher e como amiga.
—–- Estou?

—–- Estava era a ver que nunca mais ligavas!
—–- E eu estava a ver que nunca mais me lembrava…
—–- Que foi?
—–- Estou grávida…
—–Suspiros. As duas tentávamos escolher palavras… Não havia outra maneira de explicar que talvez o defeito estivesse no preservativo mal colocado, no meio do alvoroço apaixonado.

—–- Agora deves estar um coração alvoraçado… O pai?
—–- É ele.
—–- Então isso é recente!
—–- Muito…
—–- E ele?
—–- Ainda agora o disseste… Coração alvoraçado.
—–- E tu?
—–- Definitivamente destrambelhada…
—–- Os teus pais?
—–- Nem sonham!
—–- Vais contar-lhes?
—–- Só se quiser dar-lhes uma enxurrada de desgosto…
—–- Tantos?
—–- Deixar de se virgem imaculada oficialmente, arranjar casamento tão cedo, tendo em conta que o genro não é exactamente o protótipo de genro perfeito, é um puto de fraldas que acabou de sair da incubadora…
—–- Não vais cometer essa loucura!
—–- Já estou perdida em tantas…
—–- Mas vais casar?
—–- Nem morta!
—–- Já fique mais aliviada… Que vais fazer então?
—–Não respondi… E o meu silencio foi resposta. Há quem lhe chame telepatia… Eu chamo-lhe amizade, cumplicidade e conhecimento que se tem por outrem, mas fica demasiado comprido…
—–- Não te posso fazer mais nada senão dar-te força, a menos que queiras que diga as pinderiquices do costume…
—–- Não precisas. Ninguém o pode fazer por mim.
—–- Tu sempre foste forte. É mais uma que tens de aguentar. E vai correr tudo bem…
—–- Já estás com as pinderiquices do costume.
—–- Não resisti! Apetece-me dar-te um par de estalos e daqueles abraços bem fortes, mas pelo telefone não dá…
—–- Diz-me sinceramente…
—–- O quê?
—–- Achas que faço mal?
—–- Não. Estás a fazer aquilo que acreditas que é melhor. E não está mal fazer aquilo em que acreditamos, podemos quando muito é estar mal acreditados… Alem disso eu sempre pensei como tu, faria o mesmo se tivesse coragem…
—–- A coragem fugiu-me… Agora essa ladainha toda que eu defendia parece-me só garganta…
—–- E era. Falavas de cor, sem nunca ter passado por isso. Depois já vais poder falar como experimentada. E coragem tu tem-la. És um poço disso. Mas se fizeres questão mando-te um bocadinho…
—–Rimos. Sempre tivemos personalidades muito fortes, sempre fomos fortes as duas, e ampararmo-nos uma à outra solidificava bem essa força…
—–Posso sentir uma brisa suave agora. Agora, que me saiu um peso de cima, já consigo ouvir o respirar da noite. É calma… É funda… É nesta respiração sonolenta que vou buscar a coragem que me falta para o grande mergulho…

—–- É amanha?
—–- É hoje. Já passa da meia-noite….

—–…e vem-nos à memória uma frase batida
—–hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…

—–Enfim duma escolha faz-se um desafio
—–Enfrenta-se a vida de fio a pavio
—–Navega-se sem mar, sem vela ou navio
—–Bebe-se a coragem até dum copo vazio…

—–Pedi para mo fazerem de madrugada. Fiquei surpreendida por aceitarem e até agradeceram. Dizem ser mais suspeito durante o dia…
—–Sinto-me encarcerada em quatro paredes. Uma janela escura da noite lá fora…
—–Estão a preparar a sala.
—–Uma enfermeira deu-me uns concelhos.
—–Um rapaz novito, que deve ser uma espécie de assistente, ofereceu-me um cigarro.
—–Não fumo. Mas apetece-me cometer o estúpido erro de experimentar aquele fumo a inundar-me os pulmões, só que já estou suficientemente inundada…
—–Deixei-me ficar do lado de fora, só trouxe o meu corpo para este corredor da morte…
—–A coragem trouxe-a na mala, ou mochila, e nos espaços que ficaram ocos em mim…
—–Decidi que o ia fazer, agora vou até ao fim. E digo isto para me convencer a mim mesma de que já não posso andar para trás…
—–Não acho que este seja o caminho mais fácil ou mais difícil, mas torna-o mais suportável pensar que não havia outra solução… E para mim não há.
—–Não faço ideia no que me vou meter…
—–Disseram-me que, com um feto tão pequeno, seria fácil e rápido. Só peço isso.
—–Não gosto que me mexam nas entranhas, e sempre tive alguma relutância em ir ao ginecologista, por isso a ideia de estar de pernas abertas em frente a alguém e ser invadida por “aparelhómetros” esquisitos para tirar vida de dentro de mim não me agrada. Mas não há solução agora.
—–Está tudo pronto. Fui chamada.
—–Está à minha espera uma maca, ou cama, ou caixão de descuidos irrevogáveis… O seu convite é duvidoso.
—–Sinto-me a caminhar para a morte…
—–Anestesiaram-me, mas vendo bem eu já estava anestesiada quando aqui cheguei. Anestesiada da horroridade da realidade do que vou fazer.
—–O meu pensamento está cada vez mais arrastado… Estou a cair no vazio, ouço as coisas cada vez mais longe… Sinto esvaziar-me de tudo, como se o meu espírito liquido se esvaísse pelas extremidades do meu corpo… Das pontas dos dedos, das mão e dos pés, por entre as pernas, escorre um fluido…

—–…E continuo a cair desamparada, sem que ninguém note, assim de mansinho…
—–…E deixo afundar-me em mágoas sem nome…
—–Se ainda não cheguei ao ponto do afogamento em que nos deixamos levar, estou muito perto…
—–…E sinto uma força escura apertar-me o peito, como um demónio viscoso… Mas não o enxoto, pelo contrário…
—–…Acaricio-o, afago-o, faço-o crescer…
—–…E gritos sopram-me aos ouvidos estórias melancólicas que são minhas, mas das quais não me lembro…
—–…Passei-as, fechei-as num quarto e fiz perdida a chave da porta…
—–…E tranquei-me lá dentro sem o saber…
—–Envenenada de agonias, embriagada de lágrimas, deixo-me levar como criança iludida…
—–…E sorrio à sua própria tristeza, a única que tenho por companhia, cada vez mais fundo, numa gruta de gritos emudecidos que nunca ganharam forma…
—–…E este é um dos poucos que consegue escapar…
—–…E são os que escapam que deixam entrar uma lufada de ar…
—–…E não deixam que me esqueça para onde fica a saída…

—–…hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…

—–E entretanto o tempo fez cinza da brasa
—–E outra maré-cheia virá da maré vaza
—–Nasce um novo dia e no braço outra asa
—–Brinda-se aos amores com o vinho da casa…

—–Adormeci no chão da sala, depois de ter tropeçado e não ter tido nem força nem vontade de me levantar…
—–Ainda é muito cedo…
—–Há uma luz azulada a entrar-me pela janela… Foi por esta janela que entramos pela primeira vez… Foi por esta janela que escapaste com as minhas asas…
—–As nossas asas… Lembraste quando as abrias desmedidamente para levar tudo o que era teu? Quando fugias por janelas abertas por estarem as portas fechadas? Quando perdias o tino e deixavas que elas te guiassem para um mundo transcendente que me aturdia e deixava sem ponta de sangue?
—–As tuas quiseram ensinar-me a fazer isso mas sempre fui mais cobarde… Ou mais comodista… Ao menos uma coisa posso dizer de bem sobre mim, não fui eu que me adaptei aos padrões, adaptei antes os padrões a mim, até porque se fosse totalmente aos quadrados nunca te tinha tido.
—–Gostas de tudo misturado, de não cumprir as regras, de sair dos padrões, mas também não és do contra, fazes somente o que te apetece… Se tiveres de gritar no meio da rua gritas, se quiseres dançar perdidamente fechas os olhos e esqueces o mundo.
—–Fazes da tua a vida um carrossel de sonhos que outros consideram impossíveis por nunca os terem tentado. E tu alcança-los, no fundo fazes o que queres, consegues tudo o que queres…
—–Nisso somos parecidos, mas tu sonhas bem alto, voas bem mais alto…
—–Ensinaste-me que poses impõem um tecto à nossa espontaneidade. E a tua é tão bonita…
—–Ainda é muito cedo…
—–Por esta hora deves estar no recobro… Espero que não te tenham tirado as asas. Sei que estão magoadas, partidas, depenadas como as minhas, mas precisamos delas para continuar.
—–Sonhei com dois pássaros de asas ardentes. Voaram sem cessar e foram espalhando as cinzas numa água escura.
—–Quando já só restavam as cinzas a boiar na água, formou-se um remoinho assombroso e de lá saiu luz. Uma luz imensa, mas não era branca… Era da mesma cor indefinível que tinham os teus olhos naquele dia tempestuoso…
—–E saiu de lá um anjo. Um anjo de asas titânicas. Um anjo com a tua cara.
—–O anjo (ou tu) voltou ao fundo do remoinho e vi-me a mim a sorrir com asas novas. Estendeste-me a mão, agarrei-a e deixei que as minhas asas se abrissem para um novo que eu ainda não conheço…
—–Nunca acreditei em histórias de prever o futuro. Hoje vou acreditar que, depois das nossas chagas arderem, teremos asas ainda maiores. E vou perder o medo de voar para ir ter ao alto contigo…
—–Quando acordares vais provavelmente refugiar-te na praia, e eu vou estar atento, para te salvar do mergulho… Mas hoje ainda é muito cedo…

—–…e vem-nos à memória uma frase batida
—–hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…- Sérgio Godinho, Primeiro Dia

Grita o mar

sussurra o vento

cantam os grilos

e o meu alento

Vejo as estrelas

chamo por elas

se elas respondem

ficam mais belas

se não responderem

deixo-me estar

há-de haver uma

que me vai chamar

É nessa altura

é ao chamamento

que o meu espirito

que jaze ao relento

vai acordar

e, ou o sonho vai perseguir

ou adormece

e deixa-o fugir…

Sonho fugido

quase esquecido

pode voltar

trazido pelo vento

de uma estrela, o chamamento

ou simplesmente

permanece assim

perdido nas ondas

de um mar sem fim…

—–Já vou sair daqui, não demorou assim muito tempo… As minhas suspeitas confirmaram-se…
—–Vou deambulando pelo corredor, atrás do médico que me viu, e vou pensando numa maneira de te dizer isto…
—–Tenho medo. Muito medo. Não sei como é que tu vais reagir, não sei como é que eu vou reagir… Este medo aperta-me o peito, parece que tenho um corpete vestido, e que as cordas me prendem as asas, magoam-nas…
—–Não é nas costas que me dói, nunca tive asas nas costas… É o meu coração que está apertado.
—–Saímos para a sala de espera, onde tu estás ansioso. Eu estava ansiosa que te tivesses ido embora. Agora estou mesmo encurralada, não dá para te fugir mais…
—–Estavas preparado para despejar um rol de perguntas em cima de mim e do medico, mas ele fez o que lhe pedi, calou-se, e pediu-te para tu te calares…
—–Desculpa, eu não queria que nada disto acontecesse…
—–Tens os olhos a desaprovarem o meu ar abatido e a minha inactividade momentânea… Depois de um desmaio não dá para disfarçar as olheiras, e a mim não me adianta disfarçar mais nada.
—–Estou cansada. Cansada de fingir que está tudo bem… Eu sabia que era isto. Tinha tanto medo que andava a adiar a confirmação.
—–Pode ser que ao contar-te saia de cima de mim algum peso de culpa. Vais ter de me ajudar a carregar este peso…
—–Não suporto esses olhos de cãozinho abandonado que tu me estás a fazer. Apagou-se-me a lâmpada, mas eu também tenho direito aos meus momentos menos iluminados!
—–Agora estás a olhar para todo o lado, mas a porta de saída vê-se perfeitamente…
—–- O que foi?

—–- Ainda agora estava aqui um velho… Esteve a falar comigo… – —–e os teus olhos apagaram-se – Lembrava-me o meu avô…
—–Estou a começar a sufocar. Tenho de sair daqui. Já não suporto este hospital que parece que me quer engolir…
—– Pedi-te para me levares à praia…
—–Quando saímos da sala de espera encolhi-me toda ao chegar cá fora. Está frio. Ao que perece estes dias de Verão acompanham-me no estado de espírito…
—–Entramos no carro e parecia que estávamos a entrar noutra sala de espera…
—–Já não estou a fugir, estou só a adiar o que tenho para te dizer a tomar balanço para um grande salto, em que não sei se me vais segurar ou não… Posso estar a ser injusta, mas só sei que nada sei… E filosofia dá-me cabo do estômago…
—–Ainda bem que me conheces o suficiente para saber quando é melhor não falarem comigo…
—–  Estou imóvel desde que arrancas-te, absorta pela janela, como se estivesse a fazer zapping numa televisão que me mostra a minha vida… Porque todo este percurso é a minha vida, toda esta ruela que vai dar à praia, faço parte dela, toda ela sabe os meus segredos… É a única que sabe todos eles…
—–Paraste o carro no cimo da rua. O ar continua frio e eu continuo encolhida. Felizmente não me puseste o braço a volta dos ombros, acho que não tinha aguentado, tinha-me desmanchado mesmo ali no meio da rua.
—–Deste-me a mão e eu apertei-a com força… Tenho medo.
—–Fomos caminhando pela areia, devagar e sem dizer nada.
—–Procuro neste nosso silêncio coragem para o quebrar. Preciso que este mar revoltado me dê força para acalmar o meu, pois a enxurrada está a querer levar tudo…
—–Eu continuo agarrada ao pedaço de mastro que resta do meu navio, que eu julguei inabalável… Falsa sensação de controlo, de um momento para o outro fica logo tudo descontrolado…
—–Ainda não te olhei em condições desde que saímos daquele inferno de enfermos… Admiro a tua paciência, esperar nunca foi o teu forte, mas parece que hoje me estás a dar espaço para iniciar a corrida que antecede o grande salto…
—–Sentamo-nos e eu já não aguento mais… Comecei a chorar baixinho. Tenho de te dizer. Tenho de abrir esta boca que nunca teve papas na língua para dizer o que quer que seja.
—–Olho para os teus olhos. Aquela expressão de cãozinho abandonado foi-se…

—–O mar enrola na areia…
—–
- Estou grávida. – e deixo que as lágrimas enrolem na areia da minha cara…
—–Abriu-se um buraco a nossa volta que nos engoliu. Não suporto que não digas nada. Puseste de pé a quase caías. Estás tão ou mais aterrorizado que eu, e isso não me ajuda nada…
—–Começaste a disparatar:

—–- Grávida? Filho? Nove meses? Fraldas? Biberões? Papas?
—–- Para já ainda só tenho de me preocupar com o que é que vou mesmo fazer uma vez que ainda faltam oito meses para o bebé estar cá fora.
—–Não consigo deixar de ser irónica e fria. É defesa. Mas tu estavas a merecer uma paulada destas. Estás-te a portar como estúpido, egocêntrico, egoísta que és. Eu também o sou. Mas este problema não é só teu. Até o acho mais meu do que teu. Sou que carrega outra pessoa na barriga. Sou eu que tenho vómitos, náuseas, mudanças de humor repentinas. Sou eu que vou sofrer alterações tanto a nível de corpo como a nível de vida… Principalmente a nível de vida.

—–- Como é que sabes então tão cedo que estás grávida? Isso não se costuma saber só aos dois, três meses?
—–- Eu fui ao hospital e fizeram-me o teste. Fizeram-me o teste ainda há meia hora atrás. E depois o que é que mudava eu só saber daqui a dois meses ou três? Só complicava!
—–E já não consigo falar mais… Os soluços que gritem por mim que preciso de ar para me despedaçar, estás a deixar-me cair…

—–O mar enrola na areia…
—–Sempre fui como as ondas, a minha vida é de vai vens… Esta criança se vier não vai mais… Se for também não volta…
—–Abraçaste-me. Finalmente estás a apanhar-me da queda. Mas ainda estou magoada…

—–- Não nos vamos deixar sozinhos, vamos cair os dois… Vamos chorar nos braços um do outro e deixar que o mundo se desfaça à nossa volta. Deixa-me agarrar-me ao teu mastro para não afogarmos e depois, quando a tempestade acalmar, pensamos em construir tudo outra vez.
—–- Desculpa… Eu já andava desconfiada, mas não tive coragem para te dizer mais cedo…
—–- Não digas nada. Vamos esperar… Só hoje. Vamos conceder-nos tempo para esperarmos por nós próprios. Porque uma sala de espera é uma escola da vida… Vamos ficar aqui abraçados a ouvir o mar gorgolejar as canções de quando éramos pequenos. Porque hoje nós estamos pequenos. Minúsculos. Vamos dar-nos tempo para crescer…

—–“O mar enrola na areia…
—–Ninguém sabe o que ele diz…
—–O mar enrola na areia…
—–É porque se sente feliz…”

12º Sala de Espera…

Janeiro 26, 2008

—–Estou outra vez no hospital…
—–Como eu odeio este sítio! O cheiro empestado da morte está por todo o lado…
—–Aqui na sala de espera o cheiro da doença mistura-se mais com o das pessoas, é mais suportável. Mas é grande a confusão também…
—–Quando entrei nas urgências, aterrorizado, atemorizado, contigo desmaiada nos braços não via nada à frente. Lembro-me de te ter deitado no balcão (com grandes protesto por parte de funcionários, doentes e afins) e gritei por um médico que nem louco, burro, ignorante para quem o mundo vai acabar…
—–Tentaram acalmar-me e quase agredi um policia, ou segurança, ou bombeio, ou lá quem era o homem.
—–Quis entrar contigo mas não me deixaram. Ainda sinto a tua mão a apertar os meus dedos, depois de te acordarem e deitarem na maca para seres observada.
—–Fizeram-me perguntas, mas não soube responder a nenhuma. Senti-me parvo e impotente. Na tua cara os teus olhos gritavam-me “desculpa” mas eu ainda não sei porquê!
—–Perguntaram-me se era a primeira vez que desmaiavas. Antecipaste-te e respondeste que não. Fiquei lívido! E com cara de parvo, senti-me mesmo estúpido. Tu não andas bem e eu não sei de nada?!
—–A tua mão ainda me aperta os dedos…
—–Os teus olhos pedem-me desculpa…
—–Só não encaixo porquê… Andas estranha ultimamente, mais pálida, menos bem disposta, mais enjoada… Mas sempre soubeste disfarçar muito bem e quase me enganaste…
—–Ontem quis obrigar-te a dizeres-me o que se passava, queria saber o que tinhas. Choraste agarrada a mim e fiquei sem perceber nada. Não insisti.
—–Agora arrependo-me de não ter insistido e ainda percebo menos…
—–Trouxeram-me para a sala de espera (trouxeram-me no verdadeiro sentido da palavra, não estava capaz de me mexer) e quiseram dar-me um copo de água com açúcar, mas acho que a minha sorte foi não ter nada no estômago, ou teria entrado a seguir a ti com vómitos compulsivos.
—–Sinto-me pequeno, um puto que há muito pouco tempo largou as fraldas. Queria as saias da minha mãe para limpar as lágrimas, ou para as esconder, porque suportá-las está a tornar-se insuportável…
—–Já não consigo estar sentado, tenho formigas a percorrerem-me o sangue. Ao menos agora tenho sangue, quando desmaiaste fiquei sem pinga dele!

—–- Acalma-te meu rapaz…
—–Mas o que é que a porra do velho quer?
—–- Só quero que tu te acalmes. De nada te serve estar assim. Aqui na sala de espera sentamos e aguardamos. Por isso se chama sala de espera. Esperamos por alguma coisa. E esperar é uma virtude. Continuas assim e ainda dás entrada nas urgências com um ataque de ansiedade.
—–Ok, estão a gozar comigo… O velho não só me lê os pensamentos como é assustadoramente parecido com o meu avô… Avô que deixei aqui neste hospital ligado a uma “gritadeira” da morte, num quarto nefasto desse cheiro moribundo e podre de doente terminal…
—–Sentei-me, ainda que um pouco relutante…
—–O velho sorri para mim.
—–Olhei à minha volta. Uma velhota queixa-se a outra das dores do reumático; uma senhora lê uma revista daquelas de negócios ou coisa parecida e vai balouçando a perna que não está engessada, tendo as muletas pousadas ao seu lado; uma cigana segura uma criancinha berrante, provavelmente cheia de febre, tal é o vermelhão na cara dela, mas se calhar ate nem tem nada e está só a berrar dos beliscões que a mãe lhe dá (ouvi dizer que as ciganas beliscavam os filhos só para aos porem a chorar e assim comover as pessoas para lhes darem uma esmola mais choruda), enquanto o resto da ceita grita, geme, reclama, gesticula, fazem um barulho infernal…
—–Um rapazinho com pouco mais de 10 anos tem uma grande ligadura no braço direito…
—–Uma rapariga com uma idade próxima da minha está a um canto… Grávida.
—–O velho continua a sorrir para mim…
—–Todos numa sala de espera. À espera da hora, à espera de vez, à espera de alguém ou de alguma coisa, à espera da morte, à espera da vida.
—–Há quem ache que a vida é uma espera constante da morte. Eu acho que esperar é uma grande perda de tempo.

—–- Há que saber esperar há que saber quando e como se deve esperar. Mas isso aprendesse com a vida. E se a vida for uma grande espera, que seja uma espera proveitosa.
—–O raio do velho que não tira aquele sorriso de anjo e atravessa-me os pensamentos…
—–Sentei-me ao pé dele.

—–- Na vida há muitas salas de espera, muitas esperas. Há que saber tirar proveito dessas esperas. Esta sala de espera pode ser uma escola da vida…
—–Franzi a testa. Filosofias de sala de espera de hospital… Não sei se o meu estômago aguenta…
—–- Surpreendido? Aprende a observar… A senhora do pé engessado está à espera. Há um mês que espera melhoras do pé partido. Mas não parou com essa espera, é mulher activa, não é de grandes esperas, tem o tempo contado, como pessoa de negócios… E enquanto está aqui sentada à espera estuda, torna a sua espera útil…
—–Estudar nunca foi o meu forte… Perda de tempo estar horas agarrado a um livro, ou a fazer exercícios chalados, para “profs” ainda mais chalados que eu… Também nunca precisei de marrar muito para ter as notas que queria, chateava-me os “profs” sempre a dizer que se me aplicasse mais, se estudasse mais, podia ser um aluno brilhante! Mas eu sou brilhante! Eu faço sem estudar o que muitos não conseguem com horas de estudo…
—–- A cigana espera que lhe vejam o filho, os restantes esperam com ela e esperam assim mostrar que são unidos, que ninguém lhes passa por cima, esperam acima de tudo fazer-se ouvir…
—–Não da melhor forma, diga-se de passagem… Mas também nunca lhes devem ter ensinado formas mais civilizadas para se manifestarem, e claro, se calhar também nunca ninguém lhes disse que um hospital não é uma sitio para protestar, nem precisam de ir todos feitos cordeiros para um deles ser atendido. Se calhar já lhes disseram isto mas eles não quiseram ouvir… São uma raça estranha, pouco civilizada aos olhos da nossa sociedade, mas também são poucos os que fazem por se integrar… Esta união, esta corrida em bando para todo o lado é uma defesa, eles têm um bocado a mania da perseguição, mas também toda (ou quase toda) a gente tem a mania que se cigano anda perto ou é para pedir esmola ou é para nos limpar os bolsos, por isso estão todos bem metidos! Os ciganos acham-se perseguidos pela sociedade, a sociedade acha-se perseguida pelos ciganos e andamos nisto… Se bem que estou com um pensamento muito moralista e também não gosto muito de ciganos, já me assaltaram mais que uma vez…
—–- O rapaz espera que a queimadura, que esconde com a ligadura branca, sare. E é uma espera árdua. Vai ter de aprender a escrever com a mão esquerda. Quis salvar a irmã pequena do tacho com água a ferver, tendo ele sofrido as escaldadelas…
—–As queimaduras são dolorosas de curar quando atingem aquelas proporções…
—–Queimei-me uma vez em pequeno. Chá a ferver no pé. Mas não foi para salvar ninguém. Foi pura desobediência. Resolvi jogar à bola na sala. Acertei na chaleira que espirrou a água para cima de mim, como castigo.
—–Lembro-me que gritei e chorei muito. E chorei principalmente porque tinha vergonha do meu pé disforme… Um pé e eu quase morria de desgosto… Agora é uma das minhas marcas de charme.
—–Eu preocupado com um pé e este miúdo com o braço que salvou a irmã para restituir. E dizem que a vida é justa. Eu portei-me mal, queimei um pé, e mais tarde as marcas tornaram-se “glamour” para mim. Este miúdo salvou a irmã, queimou o braço direito que poderá nunca mais voltar a ser normal e tem de aprender a escrever com a mão esquerda…
—–Sala de espera…
—–Escola da vida…

—–- A senhora do reumático há anos que espera. Já não sabe fazer mais nada. Está velha. Vê na espera a única solução para os seus problemas. A outra que a ouve tem ainda mais problemas mas não deixou que a espera a vencesse. Essa sim espera por alguma coisa, espera por uma melhora, enquanto a primeira espera pela morte, já que não faz mais nada.
—–Ri-me. O velho a chamar velha a uma pessoa mais nova que ele? Aquela senhora é velhota, mas este velho tem ar de ancião…
—–- Nunca te disseram que envelhecer é inevitável mas crescer é opcional?
—–Calei-me.
—–- Aquela velha limitou-se a envelhecer. Embruteceu. Agora espera pela morte que acabará com as suas queixas, rabugices e com o reumático… A outra espera ainda poder fazer algo útil na vida, para que não se torne inútil a sua morte…
—–Talvez se a embrulharem em cobertas quando a enterrarem, uma vez que os caixões de madeira deixam entrar muita humidade que não é nada boa para o reumático…
—–O velho riu-se, como se tivesse ouvido o meu pensamento-comentário irónico. Mas ficou sério de repente.

—–- A rapariga só tem 15 anos… Espera há 15 anos por um pouco de paz na vida… Já viveu de tudo, já experimentou de tudo. Já apanhou porrada, já conhece os caminhos da droga, já vendeu o corpo e quase a alma. E tudo na espera de uma vida melhor…
—–Uma sala de espera é uma escola da vida…
—–- Agora está grávida… Esperou dois meses para o descobrir, já fez quase os nove meses para o bebé nascer e provavelmente vai esperar uma vida inteira para descobrir quem é o pai. Talvez espere que aquela criança lhe melhore a vida. Esta teve coragem para andar para a frente, mas esperemos que não lhe falte a coragem para se segurar na vida… Algumas fogem para trás… mas também é preciso coragem para correr de costas…
—–Às vezes acho-me com pouca sorte… Mas que pouca sorte é a minha ao lado desta miúda de 15 anos que já passou por mais que eu na minha vida multiplicada por 3? E onde raio está escondido quem protege os fracos e inocentes de fins trágicos?
—–Talvez o fraco e inocente aqui seja eu… Sou mesmo. Ia ficando sem estômago quando te vi desmaiada, queria as saias da minha mãe. Esta miúda que teve como única mãe a própria vida, a vida da rua, que é a mais dura, vai tornar-se em pouco tempo mãe de alguém. Porque o nascimento de uma criança é o nascimento de uma mãe…
—–Eu espero que ela consiga, que encontre quem a ajude, porque sou cobarde, comodista, egoísta, como esta sociedade que precisa de uma desculpa para ajudar… E quanto menos melhor!
—–Podia dizer-lhe umas palavras bonitas… Mas de palavras bonitas e pessoas bem intencionadas está o inferno cheio, já dizia o meu avô…
—–Eu espero, numa sala de espera, aprendo a vê-la como escola da vida, em que o professor é um velho que eu não conheço, que tem um sorriso de avô, que me lembra o meu avô…
—–Ainda sinto os teus dedos apertarem os meus…
—–Espero que voltes rapidamente e boa, para me explicares o que aconteceu…
—–E enquanto espero o tempo passa…
—–Olho para o relógio de parede, para o balcão, para a porta. Tem escrito “SALA DE ESPERA” em letras gordas. Devia ter por baixo “Escola da Vida”…

—-Não sei viver sem ter de viver
—–De o que me dão já não sei gostar
—–Não se perde o que não se quer ter
—–Cada vez mais sei esperar – Rádio Macau, Acordar

11º Odeio as palavras…

Dezembro 10, 2007

—–O dia estava fresco a beira da praia. Foram os dois até lá sem dizerem nada, deixaram-se conduzir inconscientemente, mas era de prever que as suas consciências os trouxessem a este sítio, onde tantas vezes eles brincaram, discutiram, conversaram, esconderam e, mais tarde, avidamente se amaram…
—–Estenderam as toalhas à entrada da gruta, uma de frente para a outra e deitaram-se de costas, sem tirar a roupa, estava frio demais para isso…
—–O mar encrespado era mais um pormenor do mau dia de praia que se tinha posto… Mas isso não os incomodava, adoravam o sítio de qualquer maneira…
—–As suas cabeças estavam uma ao lado da outra, típica posição de conversa… Se olhassem um para o outro não veriam mais que a boca e o queixo, visto que estavam em posições inversas, mas eles gostavam conversar assim…
—–Ainda não tinham aberto a boca desde que se encontraram no café ao cimo da rua, estão no rescaldo de uma morte recente, mas o silêncio entre eles nunca foi constrangedor, pelo contrário, fazia-os ouvirem-se melhor…
—–E ele começou a falar…

—–- Amo-te!
—–- Não digas isso!
—–- Mas é verdade!
—–- É mentira! É uma palavra, não passa disso! As palavras não passam de mentiras! Odeio as palavras!
—–Eles continuavam a olhar para o tecto da gruta, impávidos e serenos, mesmo adivinhando uma longa conversa…
—–- Não sentes o que dizes… Tu adoras as palavras, fazes delas arte… – ele conhecia-a tão bem!
—–- Não são as palavras que eu adoro. Eu adoro significados e sentimentos. Às palavras odeio-as! São falsas e a arte que dizes que faço só quem sente é que a vê, quem lê só olha para palavras e recursos estilísticos, mas não percebe nada, nem sente, limita-se a olhar… – ela estava serena mas séria e baixou o tom, como se estivesse a revelar um segredo – Se percebes a minha arte nunca digas que me amas! Amor, amar… São meras palavras, denegridas, nem significado têm, são vazias…
—–- Então como demonstro o que sinto se não recorrer às palavras?!
—–- Sente! Sente intensamente que os outros vão sentir contigo. As palavras não sentem nada, só enganam…
—–- Então porque fazes arte com elas?
—–- Porque as odeio!
—–- Porque as adoras!
—–- Tens razão… E eu também…
—–- Como?! – ele começava a ficar confuso.
—–- Odeio e adoro as palavras…
—–- O que dizes são palavras…
—–Sorriram, é uma daquelas conclusões da lógica da batata, mas que tem muito para explicar… e ela explicou:
—–- O ódio e o amor são irmãos gémeos… Exactamente iguais, com nomes diferentes…
—–- Como é que podes dizer isso?
—–- Se o ódio mata, o amor também! O amor é tão louco quanto o ódio, ambos constroem e destroem, é impossível separa-los… São os dois extremos…
—–- Não te percebo…
—–- Porque só ouves as palavras, estás preso a elas… Cada uma com o seu conceito, cada uma com a sua manha… São perigosas as palavras…
—–- Porque as usas então?
—–- Para destruir esses conceitos faço aquilo a que alguns chamam de arte, outros recursos estilísticos, atribuindo-lhes sentimentos sem que ninguém o compreenda…
—–- Tu sabes usar bem as palavras…
—–- Ainda não tão bem quanto queria… As palavras são víboras falaciosas e muito poderosas para quem as sabe usar…
—–- É para isso que as queres?
—–- Para quê?
—–- Para teres poder?
—–O ar dela tornou-se sonhador:
—–- Eu quero ser sábia…
—–- Para mim já és sábia… Usas as palavras como quem acorda…
—–Ela riu-se. Iam entrar num jogo que ela adorava:
—–- Pobre tolo! Acordar é bem difícil…
—–- Porque dizes isso?
—–- Porque vejo todos os dias montes de adormecidos a bambolear por aí…
—–Ele sorriu. Já aprendera um pouco daquele jogo que ela adorava fazer:
—–- Estás a mudar o conceito simples de abrir os olhos para uma coisa mais complicada…
—–- Eu não estou a complicar, estou a pensar…
—–Ele interrompeu-a:
—–- A divagar queres tu dizer…
—–- Ou isso… Eu detesto palavras, simples palavras… – e de repente apercebeu-se de que ele também jogava às palavras como ela. Então sorriu – Mas quem é o sábio aqui afinal?
—–Ambos sorriram.
—–- És tu! Eu apenas tento aprender, mas nunca sentirei as palavras como tu as sentes… Não as admiro, uso-as apenas para me exprimir…
—–Ela já o tinha acusado disso, mas não conseguiu esconder o seu desapontamento com a resposta:
—–- Ainda à pouco dizias que me amavas…
—–- Desculpa não o devia… A verdade é que não sei usar as palavras tão bem como tu, e nunca me ensinaram a expressar-me doutra maneira…
—–- Não sabes o que dizes… – ela estava a desculpa-lo, ele sentia mais do que dizia – É mais difícil aprender a sentir as palavras do que a usa-las… Por isso é que elas são perigosas… É assim que elas enganam… Usadas de maneira inteligente conseguem tudo… Mas quem as sente não as usa… E quem as usa não as sente…
—–- Não dá para usar e sentir ao mesmo tempo?
—–- Não…
—–- Não percebo… – ele estava realmente a ficar muito confuso.
—–- Porque não sentes… – mas ela não estava zangada ao dizer isto, estava compreensiva – Quem as usa torna-se poderoso quem as sente torna-se sábio…
—–- Então um poderoso e um sábio juntos seriam donos do mundo…
—–- O sábio nunca quer ser dono de nada…
—–- Nem de si próprio?
—–Sorriram. Ele estava a pô-la à prova, e ela tinha visto os seus lábios torcerem-se num sorriso malandro… Mas tinha resposta:
—–- O sábio é simplesmente, não se possui, por isso é livre… Os que são donos de si próprios vivem para eles, para os seus caprichos…
—–- Falas bem…
—–Ela não pôde deixar de sorrir, acabara de o deixar ficar mal, mas logo de seguida irritou-se:
—–- Mas tu não percebes nada… é por isso que eu odeio as palavras! Não servem senão para confundir…
—–- A intenção era serem usadas para clarificar…
—–- Mas não clarificam… Encobrem, enganam, disfarçam…
—–- Tu és sábia…
—–A boca dela torceu-se num sorriso maldoso.
—–- Não sou nem nunca vou ser…
—–- Porquê?!
—–- Porque eu adoro as palavras… Adoro o poder que elas têm, adoro os jogos que fazem, adoro ser dona do mundo…
—–- Mas não as odeias também?
—–- É isso que me mantém equilibrada… E um dia vou ficar louca…
—–Ela riu-se do que disse, mas ele não achou piada e ficou sério.
—–- Não digas isso…
—–- Porquê?
—–- Os loucos são tristes…
—–- Os sábios são loucos… E os poderosos também… Mas nem todos são tristes…
—–- São perigosas as palavras…
—–- Muito… É preciso ter cuidado com elas…
—–Ficaram os dois em silêncio breves instantes, talvez para assimilarem a conversa antes de continuarem… E ele continuou:
—–- A palavra é um dom…
—–- O que é um dom para uns, é maldição para outros…
—–- Mas quem sabe falar vai longe…
—–- Claro! Em terra de mudo quem sabe falar é rei… E nós vivemos numa terra de mudos e calados…
—–- Chegas a assustar-me…
—–Ela sorriu divertida.
—–- Não vou dizer que não gosto…
—–- De me assustar?
—–- De coisas difíceis…
—–- Que é que isso tem a ver?
—–- Não sou eu que te assusto, são os interregnos que faço, os problemas que descubro e exploro, é a complexidade da simplicidade que te tento mostrar…
—–- É daquilo que não dizes que tenho mais medo…
—–Ela franziu a testa.
—–- Agora fui eu que não percebi…
—–- Se eu fico abismado com aquilo que dizes, o que não dizes imagino-o pior…
—–Ela irritou-se.
—–- Mas tu sabes aquilo que eu não digo!
—–- Ou então não… – mas a ironia dele só a irritou mais.
—–- Sabes sim! – fez uma pequena pausa para se acalmar e sussurrou-lhe – Tens é medo de o admitir…
—–Ele não gostou da observação, mas continuou calmo.
—–- Se há alguém aqui com medo de alguma coisa é tu…
—–- Desculpa?!
—–- Tens sim… Tens medo de sentir! Tanto medo que te escondes atrás de palavras complicadas… E odeia-las por não serem capazes de dizer o que sentes ou de te fazer sentir segura… Tens razão em dizer que “amar” é mais do que dizer “amo-te” mas as palavras também podem ser sinceras… E tu adora-las por isso, pela sua dualidade complexa…
—–Ela começou a chorar silenciosamente… Deixou as lágrimas escorrerem ate ao cabelo, sem tentar pará-las, à frente dele não tinha razões para as esconder… E era tão verdade o que ele dizia…
—–- Por ter medo que elas me magoem com essa sinceridade ou que me enganem… Eu odeio as palavras! Mas “amor” e derivados acima de todas as outras… Eu não acredito nas palavras…
—–Ele sentou-se e limpou-lhe as lágrimas com o dedo gordo carinhosamente… Passou-lhe a mão nos cabelos e num gesto manipulador fê-la sentar-se. Encostou-a ao seu peito e ela enroscou-se na protecção dos seus braços, como criança pequena… Ele dou-lhe tempo para se acalmar e por fim perguntou-lhe:
—–- Como é que te posso amar?
—–- Não me ames… Sente-me… Mas sem me tocar… Sentir só quando se toca é o mesmo que amar…
—–- Como é que te sinto?
—–Ela olhou para ele e encararam-se pela primeira vez nesse dia. Então os olhos dela ganharam um brilho tão intenso e tão profundo que parecia terem engolido as ondas do mar… Ela abriu a boca para falar, mas as palavras saíram-lhe do abismo:
—–- Olha-me no mais fundo dos olhos… Vê-me… Não fales, não toques, não penses, não tentes nada… Sente simplesmente…
—–Ele deixou-se mergulhar naquele olhar onde a água turbilhonava e ficaram assim por momentos, a gozarem a sensação de se fundirem num só…

—–É fácil amar, e ser amado, é só ter jeito para falar o que é melhor de ouvir. Mas o calor que é tudo e que é bom, só acontece quando nada é claro, esconde o que é verdade e cru… – Ornatos Violeta, Um beio igual a mil