—–Já vou sair daqui, não demorou assim muito tempo… As minhas suspeitas confirmaram-se…
—–Vou deambulando pelo corredor, atrás do médico que me viu, e vou pensando numa maneira de te dizer isto…
—–Tenho medo. Muito medo. Não sei como é que tu vais reagir, não sei como é que eu vou reagir… Este medo aperta-me o peito, parece que tenho um corpete vestido, e que as cordas me prendem as asas, magoam-nas…
—–Não é nas costas que me dói, nunca tive asas nas costas… É o meu coração que está apertado.
—–Saímos para a sala de espera, onde tu estás ansioso. Eu estava ansiosa que te tivesses ido embora. Agora estou mesmo encurralada, não dá para te fugir mais…
—–Estavas preparado para despejar um rol de perguntas em cima de mim e do medico, mas ele fez o que lhe pedi, calou-se, e pediu-te para tu te calares…
—–Desculpa, eu não queria que nada disto acontecesse…
—–Tens os olhos a desaprovarem o meu ar abatido e a minha inactividade momentânea… Depois de um desmaio não dá para disfarçar as olheiras, e a mim não me adianta disfarçar mais nada.
—–Estou cansada. Cansada de fingir que está tudo bem… Eu sabia que era isto. Tinha tanto medo que andava a adiar a confirmação.
—–Pode ser que ao contar-te saia de cima de mim algum peso de culpa. Vais ter de me ajudar a carregar este peso…
—–Não suporto esses olhos de cãozinho abandonado que tu me estás a fazer. Apagou-se-me a lâmpada, mas eu também tenho direito aos meus momentos menos iluminados!
—–Agora estás a olhar para todo o lado, mas a porta de saída vê-se perfeitamente…
—–- O que foi?

—–- Ainda agora estava aqui um velho… Esteve a falar comigo… – —–e os teus olhos apagaram-se – Lembrava-me o meu avô…
—–Estou a começar a sufocar. Tenho de sair daqui. Já não suporto este hospital que parece que me quer engolir…
—– Pedi-te para me levares à praia…
—–Quando saímos da sala de espera encolhi-me toda ao chegar cá fora. Está frio. Ao que perece estes dias de Verão acompanham-me no estado de espírito…
—–Entramos no carro e parecia que estávamos a entrar noutra sala de espera…
—–Já não estou a fugir, estou só a adiar o que tenho para te dizer a tomar balanço para um grande salto, em que não sei se me vais segurar ou não… Posso estar a ser injusta, mas só sei que nada sei… E filosofia dá-me cabo do estômago…
—–Ainda bem que me conheces o suficiente para saber quando é melhor não falarem comigo…
—–  Estou imóvel desde que arrancas-te, absorta pela janela, como se estivesse a fazer zapping numa televisão que me mostra a minha vida… Porque todo este percurso é a minha vida, toda esta ruela que vai dar à praia, faço parte dela, toda ela sabe os meus segredos… É a única que sabe todos eles…
—–Paraste o carro no cimo da rua. O ar continua frio e eu continuo encolhida. Felizmente não me puseste o braço a volta dos ombros, acho que não tinha aguentado, tinha-me desmanchado mesmo ali no meio da rua.
—–Deste-me a mão e eu apertei-a com força… Tenho medo.
—–Fomos caminhando pela areia, devagar e sem dizer nada.
—–Procuro neste nosso silêncio coragem para o quebrar. Preciso que este mar revoltado me dê força para acalmar o meu, pois a enxurrada está a querer levar tudo…
—–Eu continuo agarrada ao pedaço de mastro que resta do meu navio, que eu julguei inabalável… Falsa sensação de controlo, de um momento para o outro fica logo tudo descontrolado…
—–Ainda não te olhei em condições desde que saímos daquele inferno de enfermos… Admiro a tua paciência, esperar nunca foi o teu forte, mas parece que hoje me estás a dar espaço para iniciar a corrida que antecede o grande salto…
—–Sentamo-nos e eu já não aguento mais… Comecei a chorar baixinho. Tenho de te dizer. Tenho de abrir esta boca que nunca teve papas na língua para dizer o que quer que seja.
—–Olho para os teus olhos. Aquela expressão de cãozinho abandonado foi-se…

—–O mar enrola na areia…
—–
- Estou grávida. – e deixo que as lágrimas enrolem na areia da minha cara…
—–Abriu-se um buraco a nossa volta que nos engoliu. Não suporto que não digas nada. Puseste de pé a quase caías. Estás tão ou mais aterrorizado que eu, e isso não me ajuda nada…
—–Começaste a disparatar:

—–- Grávida? Filho? Nove meses? Fraldas? Biberões? Papas?
—–- Para já ainda só tenho de me preocupar com o que é que vou mesmo fazer uma vez que ainda faltam oito meses para o bebé estar cá fora.
—–Não consigo deixar de ser irónica e fria. É defesa. Mas tu estavas a merecer uma paulada destas. Estás-te a portar como estúpido, egocêntrico, egoísta que és. Eu também o sou. Mas este problema não é só teu. Até o acho mais meu do que teu. Sou que carrega outra pessoa na barriga. Sou eu que tenho vómitos, náuseas, mudanças de humor repentinas. Sou eu que vou sofrer alterações tanto a nível de corpo como a nível de vida… Principalmente a nível de vida.

—–- Como é que sabes então tão cedo que estás grávida? Isso não se costuma saber só aos dois, três meses?
—–- Eu fui ao hospital e fizeram-me o teste. Fizeram-me o teste ainda há meia hora atrás. E depois o que é que mudava eu só saber daqui a dois meses ou três? Só complicava!
—–E já não consigo falar mais… Os soluços que gritem por mim que preciso de ar para me despedaçar, estás a deixar-me cair…

—–O mar enrola na areia…
—–Sempre fui como as ondas, a minha vida é de vai vens… Esta criança se vier não vai mais… Se for também não volta…
—–Abraçaste-me. Finalmente estás a apanhar-me da queda. Mas ainda estou magoada…

—–- Não nos vamos deixar sozinhos, vamos cair os dois… Vamos chorar nos braços um do outro e deixar que o mundo se desfaça à nossa volta. Deixa-me agarrar-me ao teu mastro para não afogarmos e depois, quando a tempestade acalmar, pensamos em construir tudo outra vez.
—–- Desculpa… Eu já andava desconfiada, mas não tive coragem para te dizer mais cedo…
—–- Não digas nada. Vamos esperar… Só hoje. Vamos conceder-nos tempo para esperarmos por nós próprios. Porque uma sala de espera é uma escola da vida… Vamos ficar aqui abraçados a ouvir o mar gorgolejar as canções de quando éramos pequenos. Porque hoje nós estamos pequenos. Minúsculos. Vamos dar-nos tempo para crescer…

—–“O mar enrola na areia…
—–Ninguém sabe o que ele diz…
—–O mar enrola na areia…
—–É porque se sente feliz…”

12º Sala de Espera…

Janeiro 26, 2008

—–Estou outra vez no hospital…
—–Como eu odeio este sítio! O cheiro empestado da morte está por todo o lado…
—–Aqui na sala de espera o cheiro da doença mistura-se mais com o das pessoas, é mais suportável. Mas é grande a confusão também…
—–Quando entrei nas urgências, aterrorizado, atemorizado, contigo desmaiada nos braços não via nada à frente. Lembro-me de te ter deitado no balcão (com grandes protesto por parte de funcionários, doentes e afins) e gritei por um médico que nem louco, burro, ignorante para quem o mundo vai acabar…
—–Tentaram acalmar-me e quase agredi um policia, ou segurança, ou bombeio, ou lá quem era o homem.
—–Quis entrar contigo mas não me deixaram. Ainda sinto a tua mão a apertar os meus dedos, depois de te acordarem e deitarem na maca para seres observada.
—–Fizeram-me perguntas, mas não soube responder a nenhuma. Senti-me parvo e impotente. Na tua cara os teus olhos gritavam-me “desculpa” mas eu ainda não sei porquê!
—–Perguntaram-me se era a primeira vez que desmaiavas. Antecipaste-te e respondeste que não. Fiquei lívido! E com cara de parvo, senti-me mesmo estúpido. Tu não andas bem e eu não sei de nada?!
—–A tua mão ainda me aperta os dedos…
—–Os teus olhos pedem-me desculpa…
—–Só não encaixo porquê… Andas estranha ultimamente, mais pálida, menos bem disposta, mais enjoada… Mas sempre soubeste disfarçar muito bem e quase me enganaste…
—–Ontem quis obrigar-te a dizeres-me o que se passava, queria saber o que tinhas. Choraste agarrada a mim e fiquei sem perceber nada. Não insisti.
—–Agora arrependo-me de não ter insistido e ainda percebo menos…
—–Trouxeram-me para a sala de espera (trouxeram-me no verdadeiro sentido da palavra, não estava capaz de me mexer) e quiseram dar-me um copo de água com açúcar, mas acho que a minha sorte foi não ter nada no estômago, ou teria entrado a seguir a ti com vómitos compulsivos.
—–Sinto-me pequeno, um puto que há muito pouco tempo largou as fraldas. Queria as saias da minha mãe para limpar as lágrimas, ou para as esconder, porque suportá-las está a tornar-se insuportável…
—–Já não consigo estar sentado, tenho formigas a percorrerem-me o sangue. Ao menos agora tenho sangue, quando desmaiaste fiquei sem pinga dele!

—–- Acalma-te meu rapaz…
—–Mas o que é que a porra do velho quer?
—–- Só quero que tu te acalmes. De nada te serve estar assim. Aqui na sala de espera sentamos e aguardamos. Por isso se chama sala de espera. Esperamos por alguma coisa. E esperar é uma virtude. Continuas assim e ainda dás entrada nas urgências com um ataque de ansiedade.
—–Ok, estão a gozar comigo… O velho não só me lê os pensamentos como é assustadoramente parecido com o meu avô… Avô que deixei aqui neste hospital ligado a uma “gritadeira” da morte, num quarto nefasto desse cheiro moribundo e podre de doente terminal…
—–Sentei-me, ainda que um pouco relutante…
—–O velho sorri para mim.
—–Olhei à minha volta. Uma velhota queixa-se a outra das dores do reumático; uma senhora lê uma revista daquelas de negócios ou coisa parecida e vai balouçando a perna que não está engessada, tendo as muletas pousadas ao seu lado; uma cigana segura uma criancinha berrante, provavelmente cheia de febre, tal é o vermelhão na cara dela, mas se calhar ate nem tem nada e está só a berrar dos beliscões que a mãe lhe dá (ouvi dizer que as ciganas beliscavam os filhos só para aos porem a chorar e assim comover as pessoas para lhes darem uma esmola mais choruda), enquanto o resto da ceita grita, geme, reclama, gesticula, fazem um barulho infernal…
—–Um rapazinho com pouco mais de 10 anos tem uma grande ligadura no braço direito…
—–Uma rapariga com uma idade próxima da minha está a um canto… Grávida.
—–O velho continua a sorrir para mim…
—–Todos numa sala de espera. À espera da hora, à espera de vez, à espera de alguém ou de alguma coisa, à espera da morte, à espera da vida.
—–Há quem ache que a vida é uma espera constante da morte. Eu acho que esperar é uma grande perda de tempo.

—–- Há que saber esperar há que saber quando e como se deve esperar. Mas isso aprendesse com a vida. E se a vida for uma grande espera, que seja uma espera proveitosa.
—–O raio do velho que não tira aquele sorriso de anjo e atravessa-me os pensamentos…
—–Sentei-me ao pé dele.

—–- Na vida há muitas salas de espera, muitas esperas. Há que saber tirar proveito dessas esperas. Esta sala de espera pode ser uma escola da vida…
—–Franzi a testa. Filosofias de sala de espera de hospital… Não sei se o meu estômago aguenta…
—–- Surpreendido? Aprende a observar… A senhora do pé engessado está à espera. Há um mês que espera melhoras do pé partido. Mas não parou com essa espera, é mulher activa, não é de grandes esperas, tem o tempo contado, como pessoa de negócios… E enquanto está aqui sentada à espera estuda, torna a sua espera útil…
—–Estudar nunca foi o meu forte… Perda de tempo estar horas agarrado a um livro, ou a fazer exercícios chalados, para “profs” ainda mais chalados que eu… Também nunca precisei de marrar muito para ter as notas que queria, chateava-me os “profs” sempre a dizer que se me aplicasse mais, se estudasse mais, podia ser um aluno brilhante! Mas eu sou brilhante! Eu faço sem estudar o que muitos não conseguem com horas de estudo…
—–- A cigana espera que lhe vejam o filho, os restantes esperam com ela e esperam assim mostrar que são unidos, que ninguém lhes passa por cima, esperam acima de tudo fazer-se ouvir…
—–Não da melhor forma, diga-se de passagem… Mas também nunca lhes devem ter ensinado formas mais civilizadas para se manifestarem, e claro, se calhar também nunca ninguém lhes disse que um hospital não é uma sitio para protestar, nem precisam de ir todos feitos cordeiros para um deles ser atendido. Se calhar já lhes disseram isto mas eles não quiseram ouvir… São uma raça estranha, pouco civilizada aos olhos da nossa sociedade, mas também são poucos os que fazem por se integrar… Esta união, esta corrida em bando para todo o lado é uma defesa, eles têm um bocado a mania da perseguição, mas também toda (ou quase toda) a gente tem a mania que se cigano anda perto ou é para pedir esmola ou é para nos limpar os bolsos, por isso estão todos bem metidos! Os ciganos acham-se perseguidos pela sociedade, a sociedade acha-se perseguida pelos ciganos e andamos nisto… Se bem que estou com um pensamento muito moralista e também não gosto muito de ciganos, já me assaltaram mais que uma vez…
—–- O rapaz espera que a queimadura, que esconde com a ligadura branca, sare. E é uma espera árdua. Vai ter de aprender a escrever com a mão esquerda. Quis salvar a irmã pequena do tacho com água a ferver, tendo ele sofrido as escaldadelas…
—–As queimaduras são dolorosas de curar quando atingem aquelas proporções…
—–Queimei-me uma vez em pequeno. Chá a ferver no pé. Mas não foi para salvar ninguém. Foi pura desobediência. Resolvi jogar à bola na sala. Acertei na chaleira que espirrou a água para cima de mim, como castigo.
—–Lembro-me que gritei e chorei muito. E chorei principalmente porque tinha vergonha do meu pé disforme… Um pé e eu quase morria de desgosto… Agora é uma das minhas marcas de charme.
—–Eu preocupado com um pé e este miúdo com o braço que salvou a irmã para restituir. E dizem que a vida é justa. Eu portei-me mal, queimei um pé, e mais tarde as marcas tornaram-se “glamour” para mim. Este miúdo salvou a irmã, queimou o braço direito que poderá nunca mais voltar a ser normal e tem de aprender a escrever com a mão esquerda…
—–Sala de espera…
—–Escola da vida…

—–- A senhora do reumático há anos que espera. Já não sabe fazer mais nada. Está velha. Vê na espera a única solução para os seus problemas. A outra que a ouve tem ainda mais problemas mas não deixou que a espera a vencesse. Essa sim espera por alguma coisa, espera por uma melhora, enquanto a primeira espera pela morte, já que não faz mais nada.
—–Ri-me. O velho a chamar velha a uma pessoa mais nova que ele? Aquela senhora é velhota, mas este velho tem ar de ancião…
—–- Nunca te disseram que envelhecer é inevitável mas crescer é opcional?
—–Calei-me.
—–- Aquela velha limitou-se a envelhecer. Embruteceu. Agora espera pela morte que acabará com as suas queixas, rabugices e com o reumático… A outra espera ainda poder fazer algo útil na vida, para que não se torne inútil a sua morte…
—–Talvez se a embrulharem em cobertas quando a enterrarem, uma vez que os caixões de madeira deixam entrar muita humidade que não é nada boa para o reumático…
—–O velho riu-se, como se tivesse ouvido o meu pensamento-comentário irónico. Mas ficou sério de repente.

—–- A rapariga só tem 15 anos… Espera há 15 anos por um pouco de paz na vida… Já viveu de tudo, já experimentou de tudo. Já apanhou porrada, já conhece os caminhos da droga, já vendeu o corpo e quase a alma. E tudo na espera de uma vida melhor…
—–Uma sala de espera é uma escola da vida…
—–- Agora está grávida… Esperou dois meses para o descobrir, já fez quase os nove meses para o bebé nascer e provavelmente vai esperar uma vida inteira para descobrir quem é o pai. Talvez espere que aquela criança lhe melhore a vida. Esta teve coragem para andar para a frente, mas esperemos que não lhe falte a coragem para se segurar na vida… Algumas fogem para trás… mas também é preciso coragem para correr de costas…
—–Às vezes acho-me com pouca sorte… Mas que pouca sorte é a minha ao lado desta miúda de 15 anos que já passou por mais que eu na minha vida multiplicada por 3? E onde raio está escondido quem protege os fracos e inocentes de fins trágicos?
—–Talvez o fraco e inocente aqui seja eu… Sou mesmo. Ia ficando sem estômago quando te vi desmaiada, queria as saias da minha mãe. Esta miúda que teve como única mãe a própria vida, a vida da rua, que é a mais dura, vai tornar-se em pouco tempo mãe de alguém. Porque o nascimento de uma criança é o nascimento de uma mãe…
—–Eu espero que ela consiga, que encontre quem a ajude, porque sou cobarde, comodista, egoísta, como esta sociedade que precisa de uma desculpa para ajudar… E quanto menos melhor!
—–Podia dizer-lhe umas palavras bonitas… Mas de palavras bonitas e pessoas bem intencionadas está o inferno cheio, já dizia o meu avô…
—–Eu espero, numa sala de espera, aprendo a vê-la como escola da vida, em que o professor é um velho que eu não conheço, que tem um sorriso de avô, que me lembra o meu avô…
—–Ainda sinto os teus dedos apertarem os meus…
—–Espero que voltes rapidamente e boa, para me explicares o que aconteceu…
—–E enquanto espero o tempo passa…
—–Olho para o relógio de parede, para o balcão, para a porta. Tem escrito “SALA DE ESPERA” em letras gordas. Devia ter por baixo “Escola da Vida”…

—-Não sei viver sem ter de viver
—–De o que me dão já não sei gostar
—–Não se perde o que não se quer ter
—–Cada vez mais sei esperar – Rádio Macau, Acordar