11º Odeio as palavras…

Dezembro 10, 2007

—–O dia estava fresco a beira da praia. Foram os dois até lá sem dizerem nada, deixaram-se conduzir inconscientemente, mas era de prever que as suas consciências os trouxessem a este sítio, onde tantas vezes eles brincaram, discutiram, conversaram, esconderam e, mais tarde, avidamente se amaram…
—–Estenderam as toalhas à entrada da gruta, uma de frente para a outra e deitaram-se de costas, sem tirar a roupa, estava frio demais para isso…
—–O mar encrespado era mais um pormenor do mau dia de praia que se tinha posto… Mas isso não os incomodava, adoravam o sítio de qualquer maneira…
—–As suas cabeças estavam uma ao lado da outra, típica posição de conversa… Se olhassem um para o outro não veriam mais que a boca e o queixo, visto que estavam em posições inversas, mas eles gostavam conversar assim…
—–Ainda não tinham aberto a boca desde que se encontraram no café ao cimo da rua, estão no rescaldo de uma morte recente, mas o silêncio entre eles nunca foi constrangedor, pelo contrário, fazia-os ouvirem-se melhor…
—–E ele começou a falar…

—–- Amo-te!
—–- Não digas isso!
—–- Mas é verdade!
—–- É mentira! É uma palavra, não passa disso! As palavras não passam de mentiras! Odeio as palavras!
—–Eles continuavam a olhar para o tecto da gruta, impávidos e serenos, mesmo adivinhando uma longa conversa…
—–- Não sentes o que dizes… Tu adoras as palavras, fazes delas arte… – ele conhecia-a tão bem!
—–- Não são as palavras que eu adoro. Eu adoro significados e sentimentos. Às palavras odeio-as! São falsas e a arte que dizes que faço só quem sente é que a vê, quem lê só olha para palavras e recursos estilísticos, mas não percebe nada, nem sente, limita-se a olhar… – ela estava serena mas séria e baixou o tom, como se estivesse a revelar um segredo – Se percebes a minha arte nunca digas que me amas! Amor, amar… São meras palavras, denegridas, nem significado têm, são vazias…
—–- Então como demonstro o que sinto se não recorrer às palavras?!
—–- Sente! Sente intensamente que os outros vão sentir contigo. As palavras não sentem nada, só enganam…
—–- Então porque fazes arte com elas?
—–- Porque as odeio!
—–- Porque as adoras!
—–- Tens razão… E eu também…
—–- Como?! – ele começava a ficar confuso.
—–- Odeio e adoro as palavras…
—–- O que dizes são palavras…
—–Sorriram, é uma daquelas conclusões da lógica da batata, mas que tem muito para explicar… e ela explicou:
—–- O ódio e o amor são irmãos gémeos… Exactamente iguais, com nomes diferentes…
—–- Como é que podes dizer isso?
—–- Se o ódio mata, o amor também! O amor é tão louco quanto o ódio, ambos constroem e destroem, é impossível separa-los… São os dois extremos…
—–- Não te percebo…
—–- Porque só ouves as palavras, estás preso a elas… Cada uma com o seu conceito, cada uma com a sua manha… São perigosas as palavras…
—–- Porque as usas então?
—–- Para destruir esses conceitos faço aquilo a que alguns chamam de arte, outros recursos estilísticos, atribuindo-lhes sentimentos sem que ninguém o compreenda…
—–- Tu sabes usar bem as palavras…
—–- Ainda não tão bem quanto queria… As palavras são víboras falaciosas e muito poderosas para quem as sabe usar…
—–- É para isso que as queres?
—–- Para quê?
—–- Para teres poder?
—–O ar dela tornou-se sonhador:
—–- Eu quero ser sábia…
—–- Para mim já és sábia… Usas as palavras como quem acorda…
—–Ela riu-se. Iam entrar num jogo que ela adorava:
—–- Pobre tolo! Acordar é bem difícil…
—–- Porque dizes isso?
—–- Porque vejo todos os dias montes de adormecidos a bambolear por aí…
—–Ele sorriu. Já aprendera um pouco daquele jogo que ela adorava fazer:
—–- Estás a mudar o conceito simples de abrir os olhos para uma coisa mais complicada…
—–- Eu não estou a complicar, estou a pensar…
—–Ele interrompeu-a:
—–- A divagar queres tu dizer…
—–- Ou isso… Eu detesto palavras, simples palavras… – e de repente apercebeu-se de que ele também jogava às palavras como ela. Então sorriu – Mas quem é o sábio aqui afinal?
—–Ambos sorriram.
—–- És tu! Eu apenas tento aprender, mas nunca sentirei as palavras como tu as sentes… Não as admiro, uso-as apenas para me exprimir…
—–Ela já o tinha acusado disso, mas não conseguiu esconder o seu desapontamento com a resposta:
—–- Ainda à pouco dizias que me amavas…
—–- Desculpa não o devia… A verdade é que não sei usar as palavras tão bem como tu, e nunca me ensinaram a expressar-me doutra maneira…
—–- Não sabes o que dizes… – ela estava a desculpa-lo, ele sentia mais do que dizia – É mais difícil aprender a sentir as palavras do que a usa-las… Por isso é que elas são perigosas… É assim que elas enganam… Usadas de maneira inteligente conseguem tudo… Mas quem as sente não as usa… E quem as usa não as sente…
—–- Não dá para usar e sentir ao mesmo tempo?
—–- Não…
—–- Não percebo… – ele estava realmente a ficar muito confuso.
—–- Porque não sentes… – mas ela não estava zangada ao dizer isto, estava compreensiva – Quem as usa torna-se poderoso quem as sente torna-se sábio…
—–- Então um poderoso e um sábio juntos seriam donos do mundo…
—–- O sábio nunca quer ser dono de nada…
—–- Nem de si próprio?
—–Sorriram. Ele estava a pô-la à prova, e ela tinha visto os seus lábios torcerem-se num sorriso malandro… Mas tinha resposta:
—–- O sábio é simplesmente, não se possui, por isso é livre… Os que são donos de si próprios vivem para eles, para os seus caprichos…
—–- Falas bem…
—–Ela não pôde deixar de sorrir, acabara de o deixar ficar mal, mas logo de seguida irritou-se:
—–- Mas tu não percebes nada… é por isso que eu odeio as palavras! Não servem senão para confundir…
—–- A intenção era serem usadas para clarificar…
—–- Mas não clarificam… Encobrem, enganam, disfarçam…
—–- Tu és sábia…
—–A boca dela torceu-se num sorriso maldoso.
—–- Não sou nem nunca vou ser…
—–- Porquê?!
—–- Porque eu adoro as palavras… Adoro o poder que elas têm, adoro os jogos que fazem, adoro ser dona do mundo…
—–- Mas não as odeias também?
—–- É isso que me mantém equilibrada… E um dia vou ficar louca…
—–Ela riu-se do que disse, mas ele não achou piada e ficou sério.
—–- Não digas isso…
—–- Porquê?
—–- Os loucos são tristes…
—–- Os sábios são loucos… E os poderosos também… Mas nem todos são tristes…
—–- São perigosas as palavras…
—–- Muito… É preciso ter cuidado com elas…
—–Ficaram os dois em silêncio breves instantes, talvez para assimilarem a conversa antes de continuarem… E ele continuou:
—–- A palavra é um dom…
—–- O que é um dom para uns, é maldição para outros…
—–- Mas quem sabe falar vai longe…
—–- Claro! Em terra de mudo quem sabe falar é rei… E nós vivemos numa terra de mudos e calados…
—–- Chegas a assustar-me…
—–Ela sorriu divertida.
—–- Não vou dizer que não gosto…
—–- De me assustar?
—–- De coisas difíceis…
—–- Que é que isso tem a ver?
—–- Não sou eu que te assusto, são os interregnos que faço, os problemas que descubro e exploro, é a complexidade da simplicidade que te tento mostrar…
—–- É daquilo que não dizes que tenho mais medo…
—–Ela franziu a testa.
—–- Agora fui eu que não percebi…
—–- Se eu fico abismado com aquilo que dizes, o que não dizes imagino-o pior…
—–Ela irritou-se.
—–- Mas tu sabes aquilo que eu não digo!
—–- Ou então não… – mas a ironia dele só a irritou mais.
—–- Sabes sim! – fez uma pequena pausa para se acalmar e sussurrou-lhe – Tens é medo de o admitir…
—–Ele não gostou da observação, mas continuou calmo.
—–- Se há alguém aqui com medo de alguma coisa é tu…
—–- Desculpa?!
—–- Tens sim… Tens medo de sentir! Tanto medo que te escondes atrás de palavras complicadas… E odeia-las por não serem capazes de dizer o que sentes ou de te fazer sentir segura… Tens razão em dizer que “amar” é mais do que dizer “amo-te” mas as palavras também podem ser sinceras… E tu adora-las por isso, pela sua dualidade complexa…
—–Ela começou a chorar silenciosamente… Deixou as lágrimas escorrerem ate ao cabelo, sem tentar pará-las, à frente dele não tinha razões para as esconder… E era tão verdade o que ele dizia…
—–- Por ter medo que elas me magoem com essa sinceridade ou que me enganem… Eu odeio as palavras! Mas “amor” e derivados acima de todas as outras… Eu não acredito nas palavras…
—–Ele sentou-se e limpou-lhe as lágrimas com o dedo gordo carinhosamente… Passou-lhe a mão nos cabelos e num gesto manipulador fê-la sentar-se. Encostou-a ao seu peito e ela enroscou-se na protecção dos seus braços, como criança pequena… Ele dou-lhe tempo para se acalmar e por fim perguntou-lhe:
—–- Como é que te posso amar?
—–- Não me ames… Sente-me… Mas sem me tocar… Sentir só quando se toca é o mesmo que amar…
—–- Como é que te sinto?
—–Ela olhou para ele e encararam-se pela primeira vez nesse dia. Então os olhos dela ganharam um brilho tão intenso e tão profundo que parecia terem engolido as ondas do mar… Ela abriu a boca para falar, mas as palavras saíram-lhe do abismo:
—–- Olha-me no mais fundo dos olhos… Vê-me… Não fales, não toques, não penses, não tentes nada… Sente simplesmente…
—–Ele deixou-se mergulhar naquele olhar onde a água turbilhonava e ficaram assim por momentos, a gozarem a sensação de se fundirem num só…

—–É fácil amar, e ser amado, é só ter jeito para falar o que é melhor de ouvir. Mas o calor que é tudo e que é bom, só acontece quando nada é claro, esconde o que é verdade e cru… – Ornatos Violeta, Um beio igual a mil

10º Morte…

Dezembro 2, 2007

—–Hoje estive no hospital… Cheirou-me a morte.
—-Estive nos internados, o meu avô está lá… Ao passar pelos quartos, pelas salas, pelas macas… Cheirava.
—-E quando estive com o meu avô, estava demasiado frio para poder fazer mais que olhar para a janela…
—-Odeio hospitais…
—-Aquele cheiro…
—-O ambiente.*

—–Fixei os olhos no ecrã do telemóvel… Cada letra dessas palavras é um pedaço de gelo que vais soltando…

—–O que tem o teu avô?

—–Uns problemas…
—-Está perto…*

—–E é nestas alturas que fico sem saber o que dizer…
Nenhuma palavra parece adequada…
—-Odeio as palavras…

—–Não faz mal…
—-Eu reajo bem à morte…
—-É algo normal, não me afecta assim tanto…*

—–É algo normal…
Se olharmos à nossa volta é um acontecimento vulgar…

—–O que pensas sobre a morte? *

—–Palavras suspensas…
—-Morte.
—-Não consigo achar esta palavra feia, nem vazia…
—-Morte.
—-Quantos já não a pintaram? Quantos já a tentaram definir?
—-Os que a viram não voltaram… Ou não compreendemos as descrições dos que dizem ter voltado dela…
—-O que é a morte?
—-Um fim. Mas de que vida?

—–Sinceramente não sei… Mas não é da morte física que eu tenho mais medo…

—–Morte interior? *

—–Morte do espírito, morte da alma, morte da mente, chama-lhe o que quiseres.

—–O que é a morte? Um fim…
—-Quando o espírito esmorece ou a alma abandona o corpo, este vagueia vazio… Enche-o a morte, enche-o de nada…
—-Morte.
—-A morte é um fim… De que vida?
—-Há tantas vidas!
—-Vida de criança, vida de adolescente, vida de adulto… (assim generalizando)
—-E a de velho é vida? Não…
—-Velho é aquele que já deixou morrer a alma, ficou um corpo cansado, sem vida… Mas quantos corpos se vêm por aí pousados, depois de lhes terem assassinado a alma? Muitos…
—-Manequins de plástico na montra de uma loja… É a morte que mora lá dentro…
—-Velhos. Habitações da morte, e alguns corpos ainda são tão novos!
—-Morte do corpo é irremediável.
—-Morte da alma é irreversível. Mas há quem ressuscite…
—-Morte da alma é a que mais me assusta, mas a única de onde se ressuscita. Só que é também a única que deixa marcas…
—-A morte é a noite da vida, mas há quem faça a vida de noite…
—-É à noite que as estrelas se acendem…
—-É à noite que as almas ressuscitam…
—-É à noite que chega a vida, e é à vida que chega a noite…
—-Morte.
—-O outro lado da vida…
—-Morte da alma. Um corpo cheio de nada. Manequim de plástico na montra da vida…

—–O meu avô estava ligado a máquinas.
—-Saíam dele uma auto-estrada de tubos, pelo corpo decrépito e vazio.
—-Está perto…
—-A morte já lhe levou a alma, não tarda a vir buscar-lhe o corpo…

—–A noite que dá vida…
—-Vai alimentar-se a terra da morte, assim como toda a Terra…
—-A comida chegamos à mesa morta…
—-Morte.
—-Bocas… Umas comem a carne do corpo. Outras comem a essência da alma.
—-Viver para morrer… Mas chegar à morte é fácil. Difícil é percorrer o caminho da vida…
—-Morte. Não consigo achar esta palavra feia, muito menos vazia… Está cheia. Cheia de nada (porque o nada também enche), cheia de fim…

—–Um monitor nada parecido com o do meu PC mostrava os batimentos cardíacos… Estavam fracos…
—-As montanhas regulares reduziram-se à linha do horizonte.
—-Linha da morte.
—-Linha final.
—-A máquina apita.
—-É a morte que grita…
—-- Mais um! Venho buscar mais um!
—-E levou-o. Levou o corpo que a alma já a tinha levado há tempos.
—-A mim deixou-me o coração partido, com peças dispersas e sem vontade de o montar de novo…

—–Não deixes que ela leve também a tua alma. Se quiseres posso ajudar-te a colá-lo…

—–Anda cá colá-lo então…**

—–Quando eu me transformar em sopro e puder ser levada pelo vento, vou estar contigo quando quiseres.
—-O teu avô transformou-se em sopro e agora que se libertou do corpo vai poder voar com o vento até ti…

—–Que me transforme eu primeiro…**

—–Isso depois vê-se.

—–Entraram os médicos e enfermeiros todos vestidos de igual. Todos vestidos de morte.
—-Eu fui obrigado a sair.
—-No corredor estavam macas, doentes, doenças…
—-Cheirava a morte.
—-Ela veio buscá-lo. Eu não consegui vê-lo.
—-Estava demasiado frio para tirar os olhos da janela…

—–Não tenhas medo de abrir a janela. Ele estará do lado de fora, a esvoaçar por aí, mantendo a sua alma viva…
—-Viva no que foi a vida dele…
—-Viva em ti que eras parte da sua vida…
—-Viva no vento…

—–Afinal o que é a morte?
—-Um fim…
—-Um fim de um principio…
—-Um principio de um fim…
—-O fim da vida…
—-O inicio duma outra…
—-Morte.
—-Não consigo achar esta palavra feia… Muito menos vazia.

—–Este texto foi inspirado em duas conversas que eu tive em simultâneo, com duas pessoas completamente diferentes que nem faziam ideia de que a outra existia.
Apesar de achar que ambas têm visões muito diferentes da morte, deu para interligar as conversas porque aqui eu falo particularmente da minha perspectiva.
—-Aquilo que termina com asteriscos é uma cópia do que eles me disseram sendo um (*) correspondente ao João Lima e dois (**) ao Miguel Albuquerque.
—-A estes dois amigos um obrigada especial.