9º Tempestade…

Novembro 27, 2007

—–Já bebemos demais, mas nada de anormal…
—–Ainda não percebi muito bem como é que viemos dar a tua casa, nem porque é que entraste pela janela e só depois me abriste a porta. Tu tens a chave.
—–Já não estou capaz de me levantar do sofá…
—–Tu não paras. Passeias-te pelo “bengalo” de madeira que alugaste, ao que parece bastante divertida. Ainda trazes restos da música, tens decibéis pelo corpo todo…
—–Grande flash que disparou agora! Mas o estrondo a seguir diz-me que a maquina é outra…
—–Fomos apanhados de surpresa a tu paraste no meio da sala.
—–Outro trovão.
—–Chuva torrencial a bater na casinha de madeira. Parece que me estão a martelar a cabeça. Estou a ficar ressacado…
—–O vento vem ajudar à festa… É assustador o barulho uivante que vem lá de fora, mas estou bêbedo demais para ter medo…
—–- Estás doida?! Abrir as janelas com este tempo?! – mas a maneira como olhaste para mim calou-me.
—–Não estás doida, mas não estás cá… A tua dimensão é diferente…
—–“Os teus olhos não são de gente…”
—–E estas alucinações não são de estar embriagado… É como se de repente tivesse ficado sóbrio, com o susto que me fez sentir a tua expressão… E é tão indefinivelmente bonita…
—–Rodaste a maçaneta da porta…
—–- Não estás bem… – mas disse-o baixinho e incrédulo – Vais sair assim?
—–Olhaste para trás e sorriste como eu nunca tinha visto ninguém sorrir, e nem tenho a certeza de lhe poder chamar sorriso… Era quase maldoso…
—–Saíste de casa e deixaste a porta aberta… Não foi para eu te ver, tens mesmo um problema com portas, por isso entras pelas janelas…
—–Agradeço-te. A trovoada no mar é lindíssima.
—–Amanha quando me aperceber da nossa inconsciência, de estares na areia molhada, debaixo desse pé de água e dessa guerra de luzes e estampidos, sujeita a ser “churrascada” por algum relâmpago simpático que se lembre de te vir aquecer vou esconder-me da razão para não ficar com remorsos…
—–Agora não consigo impedir-te… Mas já me arrastei até a porta para a segurar, com ela sempre a bater ouvia mais barulho e não via nada.
—–Estás transfigurada, demasiado não humana, demasiado bonita…
—–A beleza de te ver encharcada, a dançar com o vento…
—–“Os teus olhos não são de gente
—–O teu ar foge para cima…”

—–Pareces levitar… Não sei como fazes, mas não tocas no chão. Rodopias, voas, misturaste com a água e com a areia.
—–Eu olho, encostado à beira da porta. Eu vejo-te. E tu deixas-me ver-te. Quantos já te viram a alma?
—–A minha está horrorizada de tanta beleza, não consigo sequer definir a cor dos teus olhos, ou as linhas do teu corpo…
—–“A nesga do abismo imaginário que remete para onde ainda não fui…”
——A chuva abre-te as asas e tu voas. Voas por esse mar dentro, voas para além da terra, voas para um planeta tresloucado e só teu…
—–O temporal está a acabar. É melhor ir buscar uma toalha… A da mesa serve, nunca sei onde é que as miúdas põem as coisas…
—–Ainda caminhas como se não tocasses no chão e os teus olhos continuam sem cor definida…
—–Abracei-te com a toalha e tu enroscaste-te a tremer. Tremes tanto! Estás gelada. Agora estás incapaz de te mexer.
—–Já pus a água a correr para encher a banheira, aguenta um bocadinho sentada na sanita, é só encher.
—–Viraste-me para ti. Estás a assustar-me. Estás lívida, só os teus lábios e os teus olhos têm cor… Os lábios estão quase pretos de tão roxos, os teus olhos têm aquela cor que nem sei se é cor…
—–Abraçaste-me e eu aproveitei para te pegar ao colo. Pousei-te dentro da banheira e puxaste-me lá para dentro.
—–Riste… Finalmente começas a reagir… E de repente voltas ao transe e preparas-te para me envolver com ele…

—–“Dancei p’ra te ver aqui
—–Eu sei que nada mais pode me ajudar.
—–- É do nono andar?
—–- Sim…
—–Quis pedir ajuda mas a língua estava morta… – Mesa, Luz Vaga”

8.Fugir de ti…

Novembro 2, 2007

—–Gosto de passear na orla das ondas ao amanhecer…
—–O ar ainda é frio, a água gelada. O céu azul liquido, espelho da água. Uma luz começa a despontar de uma linha escura. É lá que se recolhe a noite…
—–O meu passo é anormalmente lento. Venho procurar abrigo. A água brinca à volta das minhas pernas. As pedras molhadas vão reflectindo soslaios da luz que está a aparecer.
—–A praia está deserta…
—–Estou a fugir de ti…

—-“Ontem tudo o que eu queria era subir ao teu corpo
—–Eu passei no teu medo e esqueci o teu ego…”

—–
Queria o teu corpo. Queria esquecer-me de quem eras para me perder do que sou. A minha intenção era encontrar-me só mais tarde, quando tu já não pudesses fazê-lo. Entretanto alimentava o corpo, enquanto o meu ego voava por aí…
—–Vi que o teu medo é o mesmo que o meu. Queríamos a mesma coisa, os corpos um do outro, mas as nossas almas traíram-nos…

—–“Ontem tudo o que eu queria era subir ao teu ego
—–Eu passei no teu medo e esqueci o teu corpo…”

—–
Eu queria o teu corpo.
—–Enganei-me e subi ao teu ego, perdi-me la dentro embalada neste ou naquele pormenor da tua pele, no molhado dos teus lábios, mas tive os meus olhos quase sempre fechados…
—–Era o meu medo que me fazia fechá-los… Entreguei-te o meu corpo de olhos cerrados e perdi-me. Perdi a saída, ou não a quis encontrar…
—–Deixei-te entrar por uma janela que me esqueci de fechar…
—–O nosso medo é o mesmo. Sempre nos separamos do corpo para podermos ver no escuro. Quando nos fazia falta um carinho, uma noite de sexo inflamado para nos abrir os poros e deixar sair os gritos engaiolados. E depois do corpo esvaziado as nossas asas voltavam para o resgatar…
—–Desta vez é o meu corpo que vai ter de ir buscar as asas que me chamam há dias…
—–Eu estou a fugir de ti…
—–Mas as tuas encaixam-me perfeitamente.
—–É estranho não tas querer devolver, mas eu quero as minhas de volta… E tenho medo que elas não queiram voltar…
—–Perdi-me no escuro porque fechei os olhos antes de fugir. Perdi-me em ti.
—–O telemóvel vibrou.
—–Uma mensagem. Uma mensagem tua!

—–Estou ver-te do bar da praia, vim cá tomar o pequeno-almoço. Trouxe as tuas asas comigo, vou ficar aqui à espera do meu resgate…
—-
-Olhei para cima. Estás apoiado no varandim da esplanada de óculos de sol…
—–Preciso de um mergulho. Preciso submergir, deitar-me na areia enquanto não respiro, virar-me para cima e ver o reflexo invertido da superfície da água… Debaixo da água também é possível vermos o nosso reflexo… No fim vou sentir os meus pulmões quase a rebentar por não aguentarem mais suster da respiração… Nem a respiração nem a vontade de ir ter contigo…
—–E esta sou eu a fugir de ti…

—–“De repente o assunto é assunto
—–E tu mergulhas bem fundo fugindo do amor
—–Cá estarei no fim dessa espera até ao tempo do que era
—–E não volta a ser… – Pluto, Convite”