7.Pela Janela…
Outubro 27, 2007
—–Acordei ao virar-me para o teu lado. Estava frio…
—–Foste embora. Quando?
—–Deixaste-me sozinho, perdido em sonhos e silêncio. Porquê?
—–Já me tinhas dito que eras assim.
—–- Pássaro de uma noite.-– foi como te descreveste, com um sorriso malandro a mordiscar a palhinha.
—–Foi a primeira coisa que me agradou em ti.
—–A luz grita por detrás da janela. Não a quero abrir. Tenho medo que queime o ar do quarto.
—–Está a custar-me levantar. Não sei onde, porquê, como ou quando. Tenho medo que, ao sair da cama, deixe arrefecer. Arrefecer-me a mim, a ti, o quarto, a noite de ontem…
—–Acordei ao virar-me para o teu lado. Estava frio…
—–O que fiz? O que fizeste? O que fizemos? Não tenho a certeza… E se as paredes ouvem, são mudas por isso não me esclarecem…
—–Kamasutra? Não o sei todo… E sinceramente já não me recordo em que posições estivemos, lembro-me só de amar, sem tempo, modo, espaço ou razão.
—–Acabamos na cama. Sei isto porque além de acordar aqui, há rasto de sexo pelos lençóis.
—–O telemóvel tocou. Era engano. Já que tive de me levantar vou ate à cozinha.
—–Um bilhete? Teu?!
—–Levei as tuas asas emprestadas, que as minhas tiraste-mas ontem à noite…
—–Não percebi… Mas é normal não perceber o que dizes…
—–Há vestígios teus por toda a casa, mas não são visíveis; há vestígios nossos e ainda bem que não usas maquilhagem. Eu sei bem o que passei para tirar muita da que cá deixaram outras…
—–Não usas maquilhagem…
—–- Porquê, achas que preciso? – fizeste cara de inocente quando perguntaste isso… Mas eras inocente mesmo?
—–Não… Não eras inocente nem nesse caso, nem nos muitos outros em que pensei estar a levar-te no meu engodo. Afinal foste tu que me trouxeste a casa, com as tuas asas de pássaro nocturno…
—–- Entramos?
—–- Pela janela. – foi a tua resposta.
—–Eu moro no nono andar. Mas a verdade é que entramos…
—–Onde?
—–Um no outro. Sempre tivemos as portas do coração fechadas. Sempre entramos e fugimos por janelas abertas.
—–Pássaro de uma noite…
—–Vou levar as tuas asas emprestadas…
—–Ai! Escaldei-me na (censurado) da chávena!
—–Um bilhete… Está no cão amarrotado à luz da nesga da janela…
—–Vou abri-la. Tanta luz!
—–Pássaro nocturno… Mas fugiste para a luz…
—–A torradeira chama. Torradas queimadas. Pequeno-almoço nada romântico. Mais vale um duche e uma mista no café lá em baixo. Não é romântico mas sempre se come melhor…
—–A água do duche bate-me na cara mas entra-me pelos olhos as tuas palavras escritas em letra pouca feminina…
—–…as minhas roubaste-mas ontem à noite…
—–O que querias dizer com isso?
—–Agora é a tua cara e o ar de outro mundo que quase me afoga! Esqueci-me de respirar…
—–- Entramos?
—– - Pela janela…
—–Chaves do carro, carteira, óculos de sol. Vou sair para a luz, vou sair para te encontrar… Talvez ali no café da esquina. Mas não te vou procurar. Não preciso. As minhas asas vão querer voltar para o dono, as tuas vou guarda-las como reféns e tu serás o resgate que vou pedir, e o único que aceitarei como troca…
—– “Segue-me à luz
—– na escuridão não… – Pluto, Segue-me à luz”
6. Só uma noite…
Outubro 18, 2007
—–Só uma noite…
—–Sempre funcionei assim, de beijos, carícias e salivas trocadas de passagem. Nunca me seguraram muito tempo.
—–Não, não sou beija-flor, mas a flor que é beijada. E sou flor com asas, morro num sítio para nascer noutro. Ou faço nascer outro sítio, outra luz, outra chama…
—–Só uma noite…
—–Só mais uma entre as muitas outras.
—–Sexo. Suor, corpos e almas misturadas, procuramos caminhos, procuramos respostas e partimos, com ou sem elas… Grande parte das vezes sem elas…
—–“É só o nada a bater-nos à porta…”
—–Uma noite… Sexo de uma noite…
—–É o nada que vem chamar-nos, ele leva-me, leva-nos e não fica nada alem de uma noite em lençóis desarrumados, onde ficaram os restos dos nossos sonhos, gritos e gemidos de prazer, suores, saliva e lubrificante, alguma coisa que bebemos à mistura, um ou outro cabelo, ou um punhado dele talvez…
—–“… e a mim importa-me que estejas a meu lado…”
—–Sexo de uma noite…
—–Companheiro desconhecido ou conhecido piloto, aquele que como eu voa de terra em terra, de noite em noite e nesse voo cruzamo-nos para bebermos ânsias, estórias, lugares… tudo numa noite. E partimos…
—–Conhecido piloto… Nunca tive nenhum…
—–Companheiro desconhecido… Conto alguns… Mas nunca fui de me dar a toda a gente…
—–Paixões. Vão e não voltam. Prefiro assim.
—–Sexo. Puro prazer de corpos entrelaçados, esponja de lágrimas, discorrer de fluidos, libertação de gritos…
—–Só uma noite… Mais uma…
—–Mais uma noite tua, mais uma noite minha. São mais as tuas noites, são mais as minhas vidas.
—–“…enquanto o medo vai dançando à nossa volta.”
—–Medo de sentir, de nos perdermos, de cairmos, de nos prendermos…
—–Uma noite… Sempre fui assim. Passo, faço e parto. Não deixo nada além de moedas e notas e um ou outro coração despedaçado. Também não levo nada além do que já era meu e o coração bem seguro dentro do peito.
—–Saudade? Nem sei o que é isso…
—–“…o medo vai dançando à nossa volta.”
—–Nunca tive medo até hoje. Nem culpa, nem saudade, nem necessidade de olhar para o meu par mais um bocado… Só tinha prazer…
—–E o nada bate-nos à porta…
—–Sempre me levou, ou sempre o levei comigo, mas hoje o nada magoa-me…
—–E o medo dança à nossa volta…
—–Companheiro piloto? Nunca tive nenhum.
—–Sonhos, beijos, pernas e braços.
—–Vestidos, festas, luzes e corpos.
—–Palavras, gestos, línguas e sexo.
—–Só uma noite.
—–Não consigo dormir. Respiras alto. E eu nunca tinha ouvido nada além dos meus próprios gritos. E dormia sempre para acordar e ir embora, antes que alguém acordasse.
—–Hoje não durmo. Vou embora?
—–“Mas meu amor estaremos sempre de passagem…”
—–Companheiro piloto. Nunca tive nenhum.
—–Tu respiras e eu reparo. Reparo nas curvas do teu corpo deitado, a subirem a descerem com a entrada e saída de ar… Reparo nos traços da tua cara e nas linhas da tua boca. E a minha boca grita pela tua…
—–Uma noite.
—–Podia ser como as outras, em que o silencio me embala e me acompanha à saída. Hoje sufoca-me e só o quebra o teu respirar e o tick-tack de um relógio de parede. Queria poder pará-lo, queria parar aqui o tempo…
—–Paixão. Vai e não volta. E quando não vai?
—–Uma noite. Só uma noite… Sexo de uma noite… Amor de uma vida?
—–Companheiro piloto, nunca tive nenhum.
—–E tu dormes. É assim que eu me evaporo, enquanto dormem. Mas hoje o nada magoa-me, o silêncio sufoca-me, o medo devora-me.
—–“…o medo vai dançando à nossa volta …”
—–Lágrimas. Há quanto tempo não choro? Há pouco, sofro de alergias. Mas hoje não são só os meus olhos que choram…
—–O nada magoa-me, o silencio sufoca-me, o medo devora-me.
—–Sexo de uma noite, amor de uma vida…
—–Luz. Entra pela frincha da janela. É por ali que tenho de fugir… É só esperar que o medo me deixe abrir as asas do nada…
—–Já não as tenho! Tiraste-mas! Preciso de luz!
—–Companheiro piloto, nunca tive nenhum…
—–Levo as tuas emprestadas, será uma desculpa para te ver outra vez…
—–“Esquece o que eles dizem sobre um grande amor…”
—–Nunca acreditei nisso. Só uma noite. Sempre foi assim. Amar e partir. Mas hoje vou fugir pela janela com as tuas asas, vou deixar aqui as minhas, que não encontro no meio do medo e do silêncio, e levar um pouco de ti. Vou voar para a luz para me encontrares melhor…
—–E tu dormes. Inspiras e expiras lentamente. E eu já saí da cama e vesti a roupa.
—–Deixo-te um bilhete em cima da mesa…
—–O silencio acompanha-me à porta, as tuas asas protegem-me dele, e lá fora está a luz à minha espera, as tuas asas mandaram o nada embora.
—–Hoje não vou dizer adeus.
—–Até logo…
—–É só o nada a bater-nos à porta
—–E a mim importa-me que estejas a meu lado
—–Enquanto o medo vai dançando à nossa volta
—–É só uma imagem que sonhamos doce imagem
—–Nada que um dia após o outro reproduza
—–Mas meu amor estaremos sempre de passagem
—–Esquece o que eles dizem sobre um grande amor
—–Quem podia mais querer-te como eu
—–Nada que acredite conseguir mostrar pois é algo teu – Pluto, Algo Teu
5. Gosto de jogar este jogo…
Outubro 10, 2007
—–Desta vez escapaste-me mas não será por muito tempo…
—–Reza para que chova…
—–Depois deste bilhete não posso ficar parado…
—–Não sei o que te deu mas estou a gostar, e sinceramente não sei se devia…
—–És invulgar, misteriosa, pode ser perigoso entrar contigo neste jogo… Mas pareces tão inocente e tão endiabrada ao mesmo tempo… Acho que é essa falsa inocência assumida que me atrai em ti…
—–O problema é que sempre nos atraímos, mas nunca nos envolvemos… Tornamo-nos amigos. Muito amigos. Cúmplices de sexos opostos. E o facto de não sermos do mesmo sexo ainda servia a nossa disputa.
—–Agora mudaste completamente o esquema. És uma miúda, nunca o esqueci, era-me impossível; sempre te achei uma brasa, só que tentava abstrair-me disso. És uma miúda, mas não uma qualquer… E isso acirra-me duma forma que não me lembro de mo terem feito antes.
—–Sempre fui o “sabido”, gosto de o ser, ter a situação controlada, resposta na ponta da língua. Encontrei em ti outra língua afiada, atrevida, espada que luta com a minha… Aprendemos a brincar com as espadas um do outro, às nossas línguas correspondem respostas quase imediatas e geralmente certeiras…
—–- É preciso falar devagar, mas pensar depressa… – disseste-me uma vez.
—–A verdade é que quanto mais nos conhecemos, mais fácil se torna adivinhar as respostas um do outro, e mais competitiva se torna a nossa disputa, pois agora apanharmo-nos de surpresa é mais difícil…
—–Mudaste as regras do jogo. Ou mudaste de jogo mesmo, não sei bem… Mas tens-me deixado sem reacção, sem resposta, como me deixavas quando te conheci… Estás a dar-me a conhecer uma parte nova em ti… E eu estou a gostar…
—–Cúmplices de sexos opostos… E não perdemos a cumplicidade, mas tenho de te apanhar depressa neste novo jogo para não ficar para trás…
—–Não me escolheste por acaso, já uma vez me disseste que era dos únicos a saber dançar contigo…
—–Não te apaixonas ao acaso… Por isso ainda não sei bem que beijo foi aquele…
—–Ontem quando me beijaste demorei algum tempo a sair do sitio…
—–Quando finalmente me mexi, já tinhas entrado no areal. Deixei-te ir. Chamar-te seria dar parte de fraco, mostrar que tu me tinhas deixado de beicinho… Se calhar deixaste não sei… Nunca estive caidinho por ninguém… E nunca ninguém mexeu assim comigo… Mas admitir isto agora seria dar-te um desgosto, ser-te-ia fácil demais, e tu não gostas de coisas fáceis… Gostas que te dêem luta, a luta que muito poucos, se é que algum, aprendeu a dar-te…
—–Fiquei a olhar-te do cimo da rua, o teu vestido encharcado colado ao corpo… É raro andares de vestido ou de saia, dizes serem pouco práticos…
—–Fui caminhando calmamente na tua direcção e quando cheguei à beira-mar já te tinhas deitado na areia…
—–Aproximei-me de maneira tão silenciosa que nunca pensei conseguir (sou barulhento) e sentei-me ao teu lado…
—–Pensei em tocar-te, mas não quis estragar a imagem do teu lado mais doce, mais menina… Quase nunca o mostras… És uma miúda de t-shirt e calças, haveres nos bolsos (as malas chateiam-te), ténis ou sapatos desportivos. Tens alergia a grandes salamaleques e esquisitices, normais de “pitas” da nossa idade, e ao mesmo tempo consegues imprimir nessa praticabilidade normalmente masculina um toque extremamente feminino. Mistura apetecível!
—–Qualquer coisa na tua cara me chamou atenção… Depois de alguns instantes a coçar a cabeça (fico mais lento de raciocínio depois de ter bebido aquilo tudo) apercebi-me que não tinhas a maquilhagem toda borratada, porque não usas maquilhagem… Não sei onde foste buscar o eyeliner…
—–Quando o sol despontou fui-me embora. Não queria que acordasses e me visses ali.
—–Não consigo arrancar da cabeça esse sorriso que parece brincar comigo…
—–Podia ter estudado uma resposta, mas nunca fui de planear nada, e ao que parece não me tinha adiantado muito, andas inspirada…
—–Gosto dessa lata para me fugires (eu que sempre gostei de ter tudo dentro do meu controlo), deve ser o que mais gosto, a minha incapacidade de prever os teus passos…
—–Não os consigo prever hoje… Estás acima de mim, mas não vou demorar muito a chegar aí…
—–Não me apetece esperar que a chuva venha fazer-te avançar, vou arrancar de ti o pedaço que me ficaste a dever ontem…
—–Muda a música…
—–Tu esquivaste-te para a casa de banho, felizmente não levaste companhia…
—–É a minha vez de te surpreender… Vou ter contigo, nem que tenha de entrar no WC feminino…
—–Ninguém à porta…
—–Aproveitei para entrar e a casa de banho estava vazia. Tem cinco cubículos, é colorida e, ao contrário da dos homens, não cheira mal, deve ser uma essência qualquer ou a mistura dos vários perfumes que as miúdas vêm pôr três vezes em cada hora…
—–Eu sei que estás por aqui…
—–É o ponto alto da festa, por isso pelo menos durante uma hora não vai haver miúdas a retocar a maquilhagem…
—–Abriu-se o último cubículo e tu saíste. Deves imaginar o gozo que me dá a tua cara de espanto, sem perceber o que estou a fazer aqui…
—–Sorriso cúmplice quando a musica começa. Não sais do sítio. Isto já é mais que cumplicidade…
—–Agarrei-te. E depois de estares encostada à parede, és minha… Ou fazes de conta que és…
—–E eu gosto de jogar este jogo…
—--“Não sei se dura sempre esse teu beijo
—–Ou apenas o que resta desta noite
—–O vento enfim parou, já mal o vejo… – Sérgio Godinho com Caetano Veloso, Lisboa que amanhece”
