4º Ao som da música…
Setembro 26, 2007
—–Entrei na disco de rompante, mesmo a dar nas vistas. Sinto-me confiante, mais bonita do que nunca, absolutamente irresistível… Hoje a noite é minha…—–E de facto não sei até que ponto emano o cheiro afrodisíaco do desejo, mas certamente não é de mim todos os olhares que se prendem na minha silhueta…—–Fui até ao balcão, pedi uma bebida… É doce e suave no paladar, mas forte o seu efeito que depressa percorre as minhas veias…—–Já te vi… E tu já me viste…—–Sei que me olhas enquanto finjo apreciar a paisagem de cor, corpos e danças, fazendo do balcão o meu trono, mesmo estando em pé… E quando olho para ti és tu que finges distraído com historias do teu grupo de amigos… Sabes que te observo e eu sei que nem os ouves…—–A música muda…—–O álcool ajuda a apagar a pouca inibição que restava e lancei-me à pista…—–Sinto os teus olhos colados em mim… Óptimo! Era mesmo isso que eu queria!—–Fechei os olhos e deixei que os meus dedos tocarem na música que vai penetrando lentamente no meu espírito…—–Já não comando nada… Os meus membros movem-se sozinhos, envolvidos demais na batida para me obedecerem…—–Senti alguém atrás de mim, muito perto… Sei que és tu pelo teu cheiro denunciador…—–Sorrio… E sei que estás a sorrir também, afinal os nossos corpos tocam-se e não reagimos…—–Dançamos… De costas um para o outro, a adivinhar pensamentos… O primeiro que avançar fica a perder… (e continua a nossa disputa, mas se não fosse isso ambos perderíamos a piada…)—–Muda a música…—–Aparentemente cansado, vais até ao balcão, mas de cansado não tens nada… Ver-me de frente é que é bem mais interessante…—–E continuamos o nosso jogo de sedução, que ao que parece foste o único que aprendeu a jogá-lo comigo…—–Muda a música…—–É a minha vez de parar… Estás de costas para a pista…—–Aproximei-me do balcão e pus-me ao teu lado. Pedi uma daquelas bebidas tresloucadas e ao agarrar no copo toquei-te, num falso gesto inocente…—–- Desculpa! – foi o que te disse, mas deixei a culpa bem marcada na minha expressão…—–A tua resposta normal seria qualquer coisa do género “agora baixas as cuequinhas” e eu teria respondido à letra… (era impensável deixar-te sem resposta)—–Em vez disso encostaste-me ao balcão com o teu corpo… Eu meti uma mão atrevida no teu bolso para aconchegar a minha anca na tua e aproximaste-te para me beijar, mas a escassos milímetros dos nossos lábios se tocarem mordi a minha palhinha…—–O sorriso endiabrado continua a dançar-me nos lábios, desenha-me os olhos e tu sorris do teu fracasso e da minha lata para te fazer tal coisa… Outra qualquer tinha-se derretido só de a olhares como olhas para mim agora…—–Muda a música…—–Esgueirei-me de novo para a pista e antes de me perder lá no meio apontei para o teu bolso…—–Tiraste um guardanapo de papel amarrotado, daqueles das esplanadas, com alguma coisa escrita a eyeliner…—–Reza para que chova…—–É a tua vez de pôr o sorriso atrevido e cúmplice, e eu já estou perdida numa batida qualquer…—– “So just—–Touch me—–oh how I wish you could—–Touch me—–oh how I wish you would—–make sweet love to me—–and tell me that you’re mine – Sharon Phillips, Touche me”
3º Depois do Amor…
Setembro 23, 2007
—–O vento bateu-me na cara, como um estalo suave para me acordar… Levantei-me sobressaltada, por breves segundos perdi o norte, não sabia onde estava.—–Olhei para a linha do horizonte para tentar focar uma imagem… Estou dorida, ressacada, com as roupas húmidas e frias, com o cheiro pestilento do tabaco e tenho areia em todos os poros…—–Consegui finalmente vislumbrar as ondas que fazem desenhos na água, no ar e na areia, com a espuma branca e a sua arte escultural…—–Fechei os olhos para ouvir o burburinho… São sereias que cantam estes gorgolejos, não as de forma humana, como as imaginam os homens, mas as que são pintadas e esculpidas pela água…—–Ao canto delas, junta-se o vento, que me levanta os cabelos e me faz encolher para me proteger do fresco que começa a deixar-me gelada; e sabe tão bem estar abraçada às pernas e sentir o ar a arrefecer-nos a cara num gesto carinhoso, deixar todos os nossos sentidos apurarem, sentir tão atentamente que até o levantar dos nossos pelos se torna audível… Nestas alturas sabe bem estar arrepiada… Um arrepio de contentamento…—–Foi no meio desta sinfonia que tudo voltou…—–O dia na praia, nesta praia, onde deixei que o sol se infiltrasse na minha pele…—–A noite, anormalmente quente e aliciante, a chamar-me em surdina…—–A festa, com luzes psicadélicas, música electrónica e álcool a mais…—–A chuva, que levou de enxurrada todo o receio e qualquer preconceito sobre aquilo que sinto…—–O beijo… A forma como te beijei, a cara de aparvalhado com que tu ficaste, o gozo que me deu deixar-te ali, sem explicação nenhuma…—–O teu cheiro… Que se sobrepõe ao do mar e do fumo, que me invade a alma, tira-me da concentração no que me rodeia… Agora não me limito a cheirá-lo! Sinto-o, toco-o, saboreio-o… Vejo-te como se te olhasse…—–Abri os olhos mas tu não estás cá…—–Arrepiei-me outra vez! É o medo de não ter sido real, o receio de não me perdoares…—–A água e o vento entraram em turbilhão, a areia levantada pica-me, arranha-me, a maior onda investiu contra uma rocha e desmanchou-se…—–De repente tudo se acalma… O sol sai detrás das nuvens que circulam… Voltou para me consolar, reconforta-me com o seu toque quente…—–Abri os braços, deitei-me e enterrei as mãos na areia. Enchi os pulmões de tudo o que caiba, e expulsei tudo num grito de desvario, consolo e contentamento…—–“Depois do amor se eu me rir…”—–E rio-me! Rio-me às gargalhas despregadas da tua expressão de pasmo, a última que vi em ti… Rio-me do meu desatino que me fez perder a razão e do quão bem me soube perdê-la… Troço do meu medo da tua reacção e rio-me da momentânea desilusão quando abri os olhos e não te vi…—–É claro que não ias cá estar! Isso seria dar-me duas vitórias numa só noite, porque uma foi o beijo que te deixou sem reacção, e isso não podias admitir…—–Rio-me da nossa constante disputa…—–Rio-me da minha figura triste, toda desgrenhada, a rir-me sozinha, coberta de areia e toda peganhenta… Rio-me de me rir…—–Olho para o céu e sorrio. Estão a chegar nuvens negras, vindas do mar…—–Levantei-me e deixei escapar da mão o resto dos grãos que tinha, despedindo-me da praia.—–Levo daqui o meu corpo, um sorriso endiabrado, um paladar agridoce e o teu cheiro, que me persegue…—–Espera-me outra festa mais tarde, mais uma noite desvairada… Mas o que me faz sorrir de satisfação quase maldosa é que sei que te vou encontrar lá…—–E esta noite vai chover outra vez…—–“Da próxima vez que me rir—–Já sabes foi o amor que cedeu—–Da próxima vez que me rir—–É porque o amor me inundou—–E a sua água em nós correu—–E o melhor veio depois—–Porque então riamos dois…—–Depois do amor se eu me rir…—–Depois do amor se eu me rir… – Clã, Depois do Amor”
2º Noite…
Setembro 11, 2007
—–Noite escura—–fria e crua—–que na vida apazigua—–(ou pelo menos tenta)—–os males, as desgraças—–e as certezas escassas—–de um mundo cruel—–sem rédea—–sem freio—–em total devaneio!—–Noite linda—–noite nua—–que os nocturnos abraça—–e os diurnos envolve—–em sono—–em sonho—–(quem sabe em pesadelo!)—–Noite escura—–noite linda—–fria e crua—–noite nua…
1º Eu, o sol, a noite, a chuva… e tu…
Setembro 1, 2007
—–O sol faz-me feliz, e convida-me a deitar-me sob ele, para me aquecer, acalma-me…—–Fico melosa, lenta, saboreio o mais que posso, inspiro toda aquela luz (talvez numa tentativa de me acender…) —–A noite sibila-me ao ouvido delícias de prazeres divinos, loucuras êxtasiantes, acende dentro de mim a luz que roubo ao sol de dia…—–Deixa-me o espírito assanhado, tal gato noctívago…—–Faz-me gostar do sabor adocicado do pecado, torna-o ainda mais apetecível…—–Desvario com a lua, que me suga todo e qualquer resto de sanidade e me faz sentir rainha sem que o seja. Sinto-me elevar com a sua beleza e depressa percorro mundos dispersos, sem sair do sítio… Vou até ela ao ponto de lhe tocar, e ouço as estórias de vidas atribuladas que procuram na lua protecção e bênção… —–A chuva desperta em mim toda a fúria de liberdade, vem matar-me a sede de me sentir viva…—–Lava-me a alma, rejuvenesce-me, expõe-me, tira-me a máscara…—–Despe-me do corpo, as gotas de água espicaçam-me o espírito, levam-no ao auge…—–Sinto-me livre, limpa, nova!—–Sou eu em estado bruto, no meio de uma sociedade que insiste em esculpir-me, a chuva arrasta os vestígios desses atentados à minha beleza selvagem… —–Agora junta a um dia de sol, passado numa praia, em que nem sequer vês as pessoas em volta, tal é a cegueira provocada pela luz…—–A uma noite de lua cheia, que faz-nos subir um uivo à garganta, a uma festa alucinada, em que corpos se cruzam e entrelaçam, comandados pela musica extasiante fundida com o poder delirante do álcool…—–E a um fim com um banho de água fria vinda do céu, que nos encharca até aos ossos e nos purifica o mais fundo da alma…—–“Podia ter voltado para a festa, como fiz noutras noites, mas preferi descalçar as sandálias, passear pela areia e sentir os meus pés, ainda molhados, afundarem-se gradualmente, até decidir sentar-me e mergulhar o meu espírito no negro do mar nocturno…—–Já não falta muito para amanhecer… Vou esperar que o sol nasça e com ele a minha alma, vou sentir o calor secar-me a roupa, devagarinho para que não apague o teu cheiro…—–Não sei se me vais perdoar o beijo apaixonado que te roubei, quando vieste resgatar-me da chuva torrencial… (sempre gostamos de nos picar a ver qual dos dois é o mais louco)—–Deixei-te especado no meio da rua, a recuperar fôlego, talvez a assimilar o que acontecera, e refugiei-me na praia mais próxima, aquela ao fundo da rua… Não fugi, limitei-me a vir embora, talvez para ver se vinhas atrás de mim…—–O sol já nasceu e eu vou adormecer, completando assim o meu transe…—–Não deves estar aqui quando eu acordar (apesar de ter uma réstia de esperança acesa pela paixão que tenho por ti), por isso vou sonhar com a próxima tempestade, que porá a nu aquilo que sinto…—–E não quero esquecer isso nunca, porque nunca me senti tão verdadeira, e não me arrependo… Arrependo-me sim de não fazer isto mais vezes…”—--“I don’t mind spending everyday—–Out on your corner in the pouring rain—–Look for the girl with the broken smile—–Ask her if she wants to stay awhile—–And she will be loved—–And she will be loved … – Maroon 5, She will be loved”
Não é o prefácio, que não tenho nenhum, é uma desculpa —> O som
Setembro 1, 2007
Já devia ter publicado alguma coisa, sem dúvida, mas estive a braços com uma guerra ao tentar pôr sons no WordPress. Enfim cansei-me.
Infelizmente o WordPress não me deixa colocar som de forma práctica e gratuita. Por outro lado, o Imeem deixa, então decidi usa-lo como complemento.
Para ouvirem a música é só irem a www.rosacarne.imeem.com fazerem o resgisto e escolherem a música.