Podias dar-me uma chave de casa pai!

Eu prometo que não vou fugir, ainda sou muito pequena para deixar o meu quarto, ainda não sei cozinhar, ainda há bem pouco tempo era bebé de colo… Mas tu podias dar-me uma chave de casa…

Eu não vou sair à noite às escondidas, para isso bastava-me a janela, nem vou entrar à socapa durante o dia, para isso está cá a empregada.

Eu sei que ainda sou pequenina papá, a tua menina, de vestidinho pelo joelho como a mãe gostava de me vestir. E eu adorava andar com esses vestidos a fingir que era uma princesa.

Ainda sou uma princesa para ti, não sou pai? Ainda te custa pensar na ideia de me dar uma chave de casa… Uma simples chave…

Não precisas de me dar a chave da porta da frente, eu posso entrar e sair pela garagem. Assim nunca me vais a imaginar a fechar a porta e nunca mais voltar…

Eu não quero fugir de casa pai, só quero a chave da porta, para poder entrar, depois de dias esgotantes a tentar construir-me. E eu preciso da tua ajuda para isso…

A mãe conta que eu demorei muito tempo a andar, e quando comecei era extremamente cuidadosa para não tropeçar nos meus próprios pés. Eu ainda sou assim, pequenina demais para caminhar sozinha fora de casa.

Ainda sou demasiado pequena para fugir pai, mas já não é tempo de andar de mão dada com a tua. Eu agora já preciso das minhas duas mãos livres para lutar por mim própria, para mim própria, mas se me puseres uma chave de casa numa delas, eu vou ter a certeza de que pelo menos uma porta vai abrir-se sempre para mim, para eu poder descansar das pancadas que me derem aquelas que se fecharem.

Acredita que ainda vou precisar muitas vezes de colo, porque eu ainda sou pequenina, mas as responsabilidades pedem-nos para crescer, fazem-nos crescer… E às meninas crescidas já se dá uma chave de casa.

Dá-me uma chave de casa pai, para eu me sentir crescida, para os outros acreditarem que eu cresci, para eu acreditar que sou capaz de ser grande como tu… Porque eu tenho medo de ser grande, eu não sei o que quero ser quando for grande…

Dá-me uma chave de casa pai, que eu prometo que não fujo, prometo estar sempre a horas em casa, prometo não te preocupar, nem à mãe, prometo usar um dia um daqueles vestidinhos que me faziam sentir uma princesa, mas para o meu tamanho, prometo voltar a brincar com as minhas barbies… Prometo dar-te a mão para correr pela praia, e acabar o dia a fazer castelos na areia…

Eu prometo ser sempre pequenina para ti pai, mas dá-me uma chave de casa para eu poder ficar…

 

Inês Amorim

 

 

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