Vem dormir comigo.

Março 31, 2007

Vem dormir comigo. Vem sossegar-me com mimos e festas e sussurros. Sussurra baixinho coisas bonitas, coisas simples, coisas pequenas. Não tentes metáforas ou antíteses complicadas, porque eu quero parar o cérebro. Sussurra só palavras soltas, aquelas que as mães dizem aos filhos para eles adormecerem.

Sussurra baixinho aquelas estórias de princesas e casteloas e monstros, com príncipes e heróis e “superes-alguma-coisa”. Sussurra num tom infantil, ingénuo, paciente, como toda a calma do mundo. E inventa estórias de fadas e elfos e cogumelos falantes, conta-me coisas de super-meninas, com super-poderes e super-qualidades. Não te preocupes com superlativos ou palavras megalómanas, que eu não me quero esforçar para entender.

Vem dormir comigo e vamos ser pequeninos. Vamos voltar a brincar com casinhas, comidas e bonecas de plástico. Vamos jogar futebol com canetas, fazer uma reserva de dinossauros e montar aqueles legos gigantes às cores. Os legos pequenos são para gente crescida.

Não me apetece ser crescida. Não hoje, não agora, não contigo a dormir ao meu lado. Hoje só quero mimos e festinhas e palavras bonitas. Palavras fáceis e pequenas e vulgares. Quero palavras de meninos.

Vamos ser meninos bonitos e vamos deitar-nos cedo. Vamos dormir toda a noite sossegados, sem medo dos medos do chão que está debaixo da cama. Mas anda dormir comigo para os medos de chão debaixo da cama terem medo de vir cá acima fazer-me crescer. Porque se não dormires comigo eu tenho de crescer para não ter medo.

Hoje chega de ser crescido, vamos crescer só amanha. Agora vamos enroscar-nos em cobertas e mergulhar nas almofadas, como se fossem nuvens de algodão doce. Vamos sonhar com nuvens de algodão, fofinhas, e atirar flocos um ao outro, porque estes não magoam. Os flocos de nuvens vão desfazer-se no ar, como os sonhos se desfazem quando acordas…

Afinal não atires os flocos de nuvem, senão vamos acordar depressa, eu hoje quero ser pequenina mais tempo.

Vem dormir comigo. Amanha temos tempo de sermos crescido, mas hoje vamos dormir como crianças. Ao menos no sono vamos ser infantis. Vamos conservar alguma coisa de criança que não nos impeça de sermos mais grandes. Dormir enroscado não nos impede de sermos mais grandes. Vamos descansar um bocadinho de sermos grandes, porque se soubermos ser pequeninos, um dia saberemos o que é ser maiores.

Vem dormir comigo. Apaga a luz e olhos e o cérebro. Acende a luz de presença e as estrelas florescentes do tecto. Sussurra baixinho… Já estás a dormir?

 

Inês Amorim

 

 

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