Choro.

Maio 5, 2008

Não sabes o quão mais bonita fico depois de chorar.
Depois das lagrimas, dos inchaços, das rugas da cara contraída. Depois do sorriso forçado para que ninguém veja o nó da garganta. São olhos vermelhos, dores de cabeça e o ranger dos dentes. É um exercício completo, mas penoso como todos os exercício que servem para tonificar o corpo. E se o choro for violento melhor ainda, porque não são só os músculos da cara que se contraem, mas também as mãos e a barriga. Não percebo porque dizem que chorar é mau.
Não é agradável, mas certamente será mais curto que um pós-operatório de uma plástica qualquer. Aliás desconfio muito que o pos-operatório dessas intervenções são tão dolorosos para que chorar faça parte da fisioterapia.
E tu não imaginas o quão bonita fico depois de chorar.
Depois do alivio de se ter despejado o que nos corrói, de tirar elefantes do peitos e o sal que nos põem nos olhos, depois de estes ficarem limpos, lisos, bem abertos, eles ficam lindos. São olhos vidrados que não escondem o choro, mas escondem o motivo. O motivo nunca interessa a ninguém. Mas aqueles olhos vidrados, mudos, mas expressivos, turbulentos, mas passivos, olhos de maré traiçoeira.
São intrigantes esses olhos, desconfortáveis. Assim são os sorrisos torcidos, depois do choro. Uns são sorrisos tristes de ter acabado o suplicio. Outros são de malícia, de vingança. Uns ainda são de iluminados que viram que sorrir custa menos. Não interessa o motivo, ninguém o sabe. E ninguém consegue ver de que é o sorriso, que mal destapa o dentes ha pouco doridos do ranger.
Mas eu fico bonita. Depois de chorar eu fico linda. Porque qualquer imagem de choro no espelho nos torna feios e disformes e ogres gritantes de lamurias e lamentos.
Depois de chorar eu fico leve e solta e livre. É como um lavar de alma ara levantar voo. E o os olhos de vidro e o sorriso torcido são para intimidar pessoas como tu, que pensam que chorar é de fraco e de podre e de frágil.
Tu não sabes como fico bonita depois de chorar porque nem te atreves a olhar. Garanto-te que intimido. E tu tens medo disso. Tens medo que algo no meu rosto te prenda, te desafie, te faça querer o meu sorriso e os meus olhos endiabrados. Preferes vê-los quebrados, é mais fácil, porque quando estão mais feios não te interessam.
Não queiras ver-me a chorar, vê-me depois. Vê-me depois de me pisares, amolgares e escorraçares. Atreve-te a ver-me depois de me levantar.
Não te atreves. Sempre que viras costas sentes uma sombra cobrir-te a cabeça e encolheste-te num arrepio. Essa sombra é minha. Sou eu que fico grande, muito maior que tu. Mas olhar para trás assusta-te, não vá teres-te esquecido de alguma coisa no caminho. Não vá teres-te esquecido que gostas de mim. Ou simplesmente não olhas por não quereres lembrar-te disso.
É mais fácil assim realmente. Não há lutas. É só olhares quando eu estou fraca para confirmares que não gostas do que sou, e virar costas antes de ver qualquer coisa que seja que te possa pôr em duvida.
Não faz mal, não me interessa. Porque depois de chorar eu fico linda.

Abril 9, 2008

Vim à janela ver a noite lá fora. Ela gosta de me chamar de vez em quando.
Infelizmente não tenho varanda, por isso fico metade dentro, metade fora, a olhar…
Está a levantar vento. Hoje a noite não está especialmente bonita, mas está aliciante.
A vista da minha janela é das piores. Traseiras de prédios sujos e velhos, roupas estendidas, rua de acesso a garagens que nem é rua, é um bocado de cimento que puseram em cima de terra e que já rebentou.
Não há estrelas hoje. As nuvens cobrem o céu e correm de um lado para o outro, quero fugir cm elas.
Vai salvando o cenário os candeeiros espetados que nem girassóis, mas sem pétalas. São só bolas redondas amarelas e toscas, que dão aquele tom dourado à luz e um aspecto sinistro às sombras.
Ai o vento a fazer barulho! A passar os prédios, nos carros, no cascalho do chão. A agitar as folhas das árvores, a dançar com as folhas das árvores.
Parece o sussurro do mar ao longe, com as ondas a rebentar na areia.
Falta-me o cheiro do mar, em vez deste cheiro nefasto de cidade molhada.
Quero voar! Atirar-me da janela e seguir com o vento, tão leve, tão solta, tão livre!
Quero ser louca e uivar à lua que não vejo.
Hoje a noite quer brincar comigo. E eu quero sair de casa, correr por ruas desertas, dançar com as folhas e o vento, perder-me em caminhos desconhecidos.
Quero a adrenalina deste mal louco que se apoderou de mim e se esconde no num sorriso no canto da boca.
Hoje sou tudo o que quero. Mas a maldita razão manda-me para a cama som sono, à espera que me comporte como boa menina.
Eu não quero ser boa menina, hoje não. Mas hoje tem de ser.
Vou guardar-me para um dia em possa usar alter ego endiabrado…

Eu acredito.

Abril 6, 2008

Eu acredito em pessoas especiais, em grandes sonhos e em inocência espontânea, afinal eu so sou espontânea quando sou inocente.

Acredito na frontalidade, na sensatez e no bom senso. No bem das pessoas e no mal também.

Acredito que nos enganamos, que nos arrependemos e que choramos, mas também acredito em perguntar, em ouvir e em compreender.

Acredito na vida, nas coisas boas e nas recordações!
Em finais felizes, em amores para sempre e em formas de amar diferentes.
Em gritar com tudo o que está nos pulmões, em gargalhadas com vontade e em sorrisos significativos.
Em estar sempre bem, mas quando não estiver heide ter quem me ajude.
Que ter medo me faz fugir, mas que haverá alguém para me encontrar.

Acredito que os livros no ensinam a falar, as fotografias a ver e os filmes a sonhar com hipóteses que não imaginamos. A música são sentimentos.

Eu acredito em melhores amigos e em amigos para sempre.

Acredito que um dia vou ser grande e rica e um pouco cabra talvez.

Acredito que a areia me envolve os pés para me proteger, que a lua olha por mim e que o mar… O mar sou eu, numa escala incrivelmente maior.

(Perdoem-me a poesia, mas eu acredito em poetas.)

Abril 1, 2008

Vamos brincar de crianças

fingir que somos pequenos

que somos esperanças.

Vamos brincar de meninos

fingir a inocência perdida

na altura em que a responsabilidade

no foi posta e exigida.

(é bom sentir-me assim outra vez)

Innocence - Avril Lavigne (vá a miúda vai tendo coisas audiveis…)

Nicest Thing (talvez…)

Março 27, 2008

All I know is that you’re so nice,
You’re the nicest thing I’ve seen.
I wish that we could give it a go,
See if we could be something.

I wish I was your favourite girl,
I wish you thought I was the reason you are in the world.
I wish I was your favourite smile,
I wish the way that I dressed was your favourite kind of style.

I wish you couldn’t figure me out,
But you always wanna know what I was about.
I wish you’d hold my hand when I was upset,
I wish you’d never forget the look on my face when we first met.

I wish you had a favourite beauty spot that you loved secretly,
‘Cos it was on a hidden bit that nobody else could see.
Basically, I wish that you loved me,
I wish that you needed me,
I wish that you knew when I said two sugars, actually I meant three.

I wish that without me your heart would break,
I wish that without me you’d be spending the rest of your nights awake.
I wish that without me you couldn’t eat,
I wish I was the last thing on your mind before you went to sleep.

All i know is that you’re the nicest thing I’ve ever seen
I wish that we could see if we could be something…

20º Despedida…

Março 19, 2008

—–Olhou para os olhos dela à procura de uma lagrima mas encontrou o bambular de um sorriso triste…

—–- Não choras? – perguntou.
—–- Tenho as lagrimas presas num abismo qualquer… Hei-de chorar, um dia, quando for inundada por um mar de tristeza repentino e inexplicável… Mas agora não vou chorar, voo sozinha, dou espaço à minha alma para se despedaçar aos poucos e quando cair a ultima peça choro… A tua partida, a nossa despedida, o que ficou por dizer, o não ter chorado…

—–“Aquela triste e leda madrugada” lembrou-se “em que se diz adeus ao passado e olá a um futuro inserto, por muito que nos custe deixar tudo para trás…”

—–Olhou-a mais uma vez… Continuava perto dela mas nunca a sentira tão distante, e estava linda, lapidada em gelo, com um sorriso torcido…

—–“Não chores por mim!” pensou “Lembrarei para sempre esse teu ar gelado que esconde o teu lado quente que sente, que chora, que só aparece mais tarde mas que eu sei que está lá, porque mostraste-mo, porque te entregaste… E agora fechas-te de novo em copas tal como eu te conheci, sem lagrimas, sem magoas, com os mesmo olhos de vidro… Só muda o teu sorriso e sorrio por te conseguir conhecer! O teu sorriso antes era franco, aberto, este é torcido, de quem deseja esquecer depressa mas lembrar para sempre…
—– Hei-de encontrar-te, um dia… Encontrar-te-ei com nova luz, de quem já esqueceu… Perguntar-te-ei se já choraste por mim mas não vais responder, vais sorrir ou rir mesmo! E eu vou ser capaz de decifrar esse sorriso, como vi agora esses lábios torcidos…”

—–Ele foi-se afastando a olhar para trás, a contemplar aquele ar gelado… Por segundos desejou que ela lhe dissesse adeus, só que ela continuou imóvel e calada; mas, quando conseguiu realmente vê-la, sentiu não um “adeus” mas “até breve”!
Olhou de novo mas ela já não estava lá… Voltou-se para a frente e sentiu fundir-se nele o mesmo gelo, o olhar de vidro e o sorriso torcido de quem deixara para trás, mas que levará sempre consigo…

Fim

Neste infinito fim que nos alcançou
Guardo uma lágrima vinda do fundo
Guardo um sorriso virado para o mundo
Guardo um sonho que nunca chegou

Na minha casa de paredes caídas
Penduro espelhos cor de prata
Guardo reflexos do canto que mata
Guardo uma arca de rimas perdidas…

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que conheci…

Num mundo onde tudo parece estar certo
Guardo os defeitos que me atam ao chão
Guardo muralhas feitas de cartão
Guardo um olhar que parecia tão perto

Para o país do esquecer o nunca nascido
Levo a espada e a armadura de ferro
Levo o escudo e o cavalo negro
Levo-te a ti…
Levo-te a ti…
Levo-te a ti…
Levo-te a ti para sempre comigo…

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que senti
Falo ao mar do que nunca perdi…

Toranja

19º Quarto crescente…

Março 17, 2008

—–Hoje tive a certeza de que me ia embora…
—–Hoje, quando desenhaste um coração nas cinzas da fogueira raquítica que acendemos só por acender…
—–Os meus pés já não suportam a areia, já estão cansados demais…
—–A minha alma está pesada demais… Pesada desta paixão efervescente, da dor da perda e do remorso… Pesada principalmente do remorso…
—–Já tinha esquecido o que era o remorso, aquele remoer de alma incessante… Porque eu não tinha remorsos, deixei de os ter para alimentar os caprichos da minha vontade, mas a vontade constrangida trouxe-os outra vez com ela…
—–Não estou arrependida, mas já não aguento esta corrosão toda, preciso de esvaziar a alma da dor e dos remorsos, rancorosos de mim…
—–Hoje tive a certeza de que me ia embora…
—–Hoje que o nosso silencio foi constrangedor pela primeira vez, e que nós nos sentimos feridos pela sua frieza…
—–Hoje que não fomos capazes de olhar no olhos um do outro e que continuamos aqui mudos, com as palavras estranguladas na garganta…
—–É quarto crescente…
—–Devolveste-me finalmente as minhas asas, deixaste-as no desenho do coração negro de cinzas que o vento atirou para cima de mim… Vêm queimadas… Queimadas pelo ardor da nossa paixão desvairada, mas trazem uma pena…
—–Esta pena é a memória do que foi nosso, mas hoje eu tive a certeza de que me ia embora…
—–Estamos os dois queimados demais para nos tocarmos sem que doa…
—–E hoje que me devolveste as asas já não há mais nada que me prenda aqui…

—–“E agora
—–Estou livre
—–Só quero ficar só

—–Assim fujo e esqueço tudo
—–Numa hora corro o mundo
—–Sou como um pássaro e largo tudo
—–Só para poder estar longe… – Lúcia Moniz, Asas na Mão”

18º O teu segredo…

Março 12, 2008

—–Eu tinha razão… Vieste para a praia.
—–Passei horas aqui a definhar à espera de uma notícia tua, mas tu não dás noticias…
—–Não sei como fazes, mas deixas a tua marca em tudo o que tocas…
—–A areia tinha as tuas pegadas, a água as lágrimas que choraste sozinha, o sol a tua luz débil deprimida de quando ficaste “menos iluminada”, como tu dizes…
—–Até o vento tinha o teu cheiro…
—–Os espinhos das dunas guardaram os teus segredos, mesmo quando me cortei em alguns ao esmaga-los de raiva… De raiva e de ciúme…
—–Ciúme porque esta praia sabe mais de ti que eu próprio… Ciúme porque é aqui que vais enterrar o que é nosso… Ciúme porque eu sabia que era aqui que virias primeiro…
—–Agora não sinto ciúme… Ver-te assim encolhida em ti própria põe a nu uma ternura que só pude ver em ti na noite em que me beijaste debaixo daquela chuva desinibida… Mas nessa noite a tua ternura era de menina pequena a quem tinham dado o mundo…
—–Hoje é de menina pequena a quem o tiraram…
—–Lembro-me de uma outra noite de bebedeira coveira, daquelas em que perdíamos o tino e nos deixávamos rebolar na roda alucinada do álcool no sangue… Tu olhaste para mim nessa tua expressão de outro mundo e olhos de cor indefinível e falaste num sibilar atordoante:

—–- Vou contar-te um segredo… Há noites em que eu me transformo em pássaro e saio por aí… Voo de alma em alma até encontrar a minha, e acordo no dia seguinte demasiado pedrada para ficar no mesmo sitio… É quando me vou embora…
—–Um pássaro exótico e intocável que abre as asas à noite para ouvir o murmurar da lua…
—–Fiquei com um olhar esbugalhado de bêbedo assustado e crédulo… Não me sai da cabeça aquele teu sorriso… Podia jurar que era quase maldoso…
—–Eu vi realmente esse pássaro noctívago a vaguear por esta praia, enquanto gritava aos grãos de areia as minha lamurias…

—–- Vou contar-te um segredo…
—–E eu vi-te… Vi um pássaro perdido a voar por aqui… Pássaro da noite.
Tentei apanha-lo. Durante as várias noites que estive aqui sozinho, aproveitava a falta de alguma para fazer para o perseguir…
—–Apanhei-o. E quando o olhei assustei-me. Eras tu. Eram os teus olhos com aquela cor que não sei o que é, que voam, à procura da luz da lua nova… Depois deixei-o fugir. Mas foi incrível a sensação de alívio que senti depois de o ver ir-se embora… Foi o confirmar da minha certeza em como vinhas aqui procurar-te…
—–Ainda não te tinhas apercebido de que eu estava atrás de ti, mas não te assustaste quando pus as mãos nos teus ombros…
—–Puxaste-as para que os meus braços te envolvessem e entrelaçaste as nossas mãos, comprimindo o boneco verde que tens no colo… Ao nosso filho deixa-o crescer na nossa falta de palavras…
—–O sol vai pôr-se e vai levar com ele esta amargura, esta luz débil de um fim menos bom… Porque a nossa história não acaba mal…
—–Hoje, assim abraçados, somos um só… Mas é a ultima vez que te tenho nos meus braços… Nos teus tens esse boneco de licra e o sol vai chamar o pássaro negro de quem estás à espera…

-—-“Somos nós o fim do que existe em nós…

—–Vamos ver o sol
—–Ver o mundo a morrer
—–Lá fora não nos faltam filmes para ver e fazer
—–O filho deita-o pela boca e deixa o puto crescer
—–Confortavelmente no seu corpo
—–Vamos pelo chão deste mundo esquecer
—–Que agora nada tem o brilho de colher e comer
—–Sobra sempre um dia para nos rendermos a estar
—–Lamentavelmente num só corpo – Pluto, Bem-vindo a ti”

—–Está feito.
—–Está morto. Estou vazia. Vazia de medo, de esperança, de preocupação…
—–Parece terem-me arrancado tudo com aquele aspirador de fetos inocentes.
—–Foram-se-me as palavras, a fome, a vontade, o riso, as lágrimas.
—–Até a tristeza se foi… Tenho os olhos secos de dor, os dentes cerrados por falta de lamentos…
—–Não me atrevo a chorar, não me vou lamentar. Fui eu que o quis.
—–Fi-lo porque achava que era o melhor, não porque estava certo…
—–Atenderam ao meu pedido para deixar a janela aberta. Vi-o voar por lá. Gostava de ir atrás dele…
—–“Qualquer coisa em mim me lembra morte
—–E eu confesso que até gosto…”
—–
O meu sarcasmo não foi embora…
—–Onde ontem trazia vida, trago hoje a morte…
—–Não era muito prudente saltar do nono andar, porque as asas da morte são normalmente mais rápidas que as da sorte… E eu sou tola mas não sou estúpida…
—–“Qualquer coisa em mim me lembra sorte
—–E eu confesso que eu aposto…”

—–Sempre tive as asas da sorte nas minhas costas, mas sei que têm limites. Sou tola mas não sou estúpida… É melhor ficar-me pelo bungee jumping, porque sem corda teria certamente um encontro violento com as pedras do passeio lá de baixo.
—–Ontem tive um encontro violento com a morte, mas fui eu que a chamei para levar a vida que tinha dentro de mim… Tive sorte mais uma vez, podia ter sido levada também…
—–Encontrei refúgio num edifico decrépito. Clínica clandestina. As paredes são brancas… Sempre detestei paredes brancas. São frias…
—–Aqui o chão, as maquinas, as macas, os lençóis, as batas, as luvas, as mascaras… Tudo é branco. De uma brancura que fere. Uma brancura que só é perturbada pelo sangue vermelho das que querem tirar vidas de dentro de si… E algumas são bem mais novas que eu…
—–Este branco grita! Este gelo agarra-se a quem está dentro dele.
—–Está na altura de eu fugir.
—–Um quadrado azul no meio deste branco… É o céu que se vê da janela. Está azul. Sem nuvens. Sem vestígios de branco. Sem vestígios de dor…
—–Arrumei as minhas coisas (limitei-me a fechar a mochila), paguei e vim-me embora. Fiquei sem o dinheiro que tinha juntado estas ferias, mas não fiquei sem a minha vida…
—–O edifício é cinzento. Cinzento como a morte que encerra dentro dele. Tenho de sair daqui, voar para o céu que é azul…
—–Vou a pé para a praia. É melhor assim. Preciso de ar.
—–Nunca pensei que me doesse tanto… Mas dói, dói muito. E a minha dor é branca…
—–O céu é azul por cima da minha cabeça e é ele que me vai consolando. É melhor deixar que ele e o vento me levem para não me perde na brancura desta dor…
—–Uma montra. Manequins de plástico. Bebés de plástico. Bonecos de plástico. Enfim, plástico.
—–Um boneco. Um boneco verde. Um boneco verde alface feito de um tecido elástico. Está cheio de um material parecido com esferovite… Não é de plástico.
—–Podiam ter-me enchido com esferovite… Estou vazia. Estou branca. E esta brancura dói-me…
—–Vou leva-lo. Preciso de encher os olhos com cor antes que ceguem também eles brancos…
—–Aperto o boneco contra o peito. Eu não quis ter um bebé nos braços. Não quis e não quero. Quero um abraço. Aquele que tu me devias ter dado, se tivesses vindo comigo…
—–Foi a mim que chamaste cobarde quando disse que o ia fazer, mas tu é que te foste enfrascar na noite anterior à minha vinda. Podia ter chamado outra pessoa, mas sem ti prefiro sofrer sozinha… E a segunda hipótese está muito longe fisicamente…
—–Não te posso censurar, refugiaste-te no que eu tenho vontade de me afogar agora…
—–Vodka é transparente… A minha dor é branca…
—–É melhor deixar que o vento me leve, não vá perder-me no caminho…

—–“Não me arrependo, meu amor
—–Não me arrependo…”
—–
Há muito que deixei de me arrepender pelo que faço. É perda de tempo. Está feito, já não se volta atrás. Temos de procurar uma solução à nossa frente…
—–É assim que eu lido com o passado, sem fugir, sem ficar agarrada, deixo-o para trás. Nunca tentei esquece-lo e não perco tempo a lembra-lo…
—–Pareço uma miúda triste agarrada ao seu boneco de licra. E sou uma miúda. Uma miúda em corpo de mulher. Uma miúda que não quis ser mulher antes do tempo.
—–Uma miúda que não quis ser mãe…
—–Prefiro agarrar-me a este boneco verde que vai ajudar a desaparecer o branco da minha alma. Porque isto dói.
—–Prefiro pensar como seria se este boneco virasse gente, do que desejar que gente virasse boneco. Porque mais vale arrependermo-nos do que não fizemos. Sempre o podemos fazer mais tarde. E eu posso ser mãe mais tarde…
—–Não me arrependo… Mas dói que se farta!

—–“Mas que eu aprendo, podes crer, isso eu aprendo…”
—-
-A minha dor é branca… Mas que o doer sirva para alguma coisa. E eu aprendo. Aprendo o significado de um minuto para mudar a nossa vida. Aprendo que dói fazer certas coisas. Aprendo que sou uma miúda com aparência de gente grande. Aprendo que não há mal em estar agarrada a um boneco. Aprendo que o preservativo não chega. Aprendo que sou uma miúda agarrada a um boneco…
—–A areia da praia está morna… Eu olho para o mar calminho à procura das minhas lágrimas…
—–A minha dor é branca. Branca como a neve gelada. Gelada como eu.
—–A minha dor é branca. Este boneco verde que trago nos braços abraça-me.
—–Finalmente o mar devolve-me as lágrimas…
—–Sou uma miúda agarrada a um boneco, num choro desesperado no meio da praia. E o boneco acompanha-me no seu silêncio e segura as lágrimas que deviam cair nas palmas das tuas mãos…
—–Quem disse que não era preciso coragem para fazer um aborto?
E a minha dor é branca…

Asa que reflecte a noite…
É a tua, é a lua
É o seu brilho intenso
É o extasie perfeito
Do cheiro do incenso!
É engano, é preguiça
É o desejo (que atiça)
É a sombra (de quem cobiça)!
É a asa que voa,
Que esconde e destapa!
Que dá a vida!
Que mata!